O shopping é lindo. Tem circulação larga onde ninguém se esbarra. O piso em mármore branco amplia os corredores onde a gente desliza como se dançasse uma valsa. Tem decoração primorosa, planejada para encantar. Tem perfume elegante no ar. O aromatizador envolve o ambiente, as narinas e as almas – deve ser este o aroma do céu.

As lojas são chiques, de grifes famosas. As vitrines bem elaboradas exibem pouquíssimas peças. Os preços se escondem em letra miúda num cantinho camuflado.

A gente não passeia, flutua. Vamos espiando as vitrines, fazendo conjecturas sobre o que comprar caso a mega sena resolva ser generosa conosco. Eu sonho com um anel da Tiffany, ela se encanta com uma bolsa. De repente, avista o casaco. No fundo de uma loja, o casaco caramelo que anda procurando há meses clama por ela. Eu indico alguns preços da vitrine, esclarecendo que a loja não é pro nosso bico. Ela insiste.

– Eu só quero ver!

A loja está vazia. O aroma é sedutor. A moça sorri. A mãe acaricia o casaco feito criança desejando presente de Natal.

– Quanto é?

A vendedora é gentil. Enaltece o corte, certifica a costura e explica a origem de seu produto:

– Este é de lã de camelo! Está dezenove e seiscentos.

Tive que rir. A mãe não entende bem – ou acha que não entende:

– Dezenove o que?
– Dezenove mil e seiscentos…

Não há sorriso que disfarce. A gente acha graça, descaradamente. A vendedora é solidária. Gostamos da imediata cumplicidade daquela moça. Fazer o que, né? Deve ter gente que compra.

Flutuamos loja afora, deixando pra trás o casaco, o camelo, o deserto e todo o ouro das arábias. Logo adiante encontramos uma loja “das nossas”, onde é possível comprar uma blusa para fazer uma mãe feliz. No caixa encontro um batom da cor que eu gosto.

– Quanto é?
– Dezenove e sessenta.

Agarro o batom, vitoriosa. Adoro a sensação de poder que uma comprinha proporciona.

Mônica Moro Harger

Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

Share
Published by
Mônica Moro Harger
Tags: camelo

Recent Posts

Às vezes, a única resposta que você precisa é observar como uma pessoa lida com um conflito

"Se eu machuco alguém, eu reconheço isso, peço desculpas e posso mudar." A frase, dita…

1 dia ago

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

3 meses ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

3 meses ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

3 meses ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

3 meses ago

Os Benefícios de Ter Hobbies Online: Apostas e Jogos com Equilíbrio

Nos dias de hoje, os hobbies online fazem cada vez mais parte da rotina de…

5 meses ago