No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos atravessar’.”
Attraversiamo… Sempre achei bonita, melodiosa e cheia de bossa essa expressão, mas só recentemente comecei a entender sua profundidade. Atravessar… não apenas mudar de cidade, país ou paisagem, mas verdadeiramente percorrer um trajeto invisível, muitas vezes inquietante, desestruturante e desconcertante que consiste em tomar as rédeas da própria existência na busca por uma vida equilibrada, ainda que não seja possível controlar os desvios, mudanças de rota e dores que aparecerão pelo caminho, alheios ao nosso desejo de viver com harmonia e paz.
Talvez esse seja um dos maiores equívocos, gastar energia tentando escapar da dor, quando é justamente atravessá-la que nos transforma. Queremos anestesiar o medo, apressar o luto, silenciar a tristeza, como se houvesse um atalho para aquilo que só o tempo e a coragem conseguem fazer. Mas algumas paisagens interiores não foram feitas para serem contornadas, e sim percorridas. Há travessias em que caminhamos devagar, outras em que precisamos pedir ajuda, parar para respirar ou simplesmente confiar que, dando um passo de cada vez, chegaremos à outra margem.
No mesmo filme, Liz faz outra reflexão belíssima. Ela diz que, se tivermos coragem de deixar tudo o que é familiar e conhecido — desde a nossa casa até antigos ressentimentos — para partir numa jornada em busca da verdade; se aceitarmos tudo o que nos acontece como uma pista e todas as pessoas que cruzam nosso caminho como mestres; e, acima de tudo, se estivermos preparados para aceitar e perdoar as verdades difíceis sobre nós mesmos, então a verdade não nos será negada.
Todos os dias, em cada canto do mundo, alguém desiste da transformação para continuar habitando o que é conhecido. O que não percebem é que toda travessia cobra um preço; mas permanecer onde já não existe vida também cobra. E, sem querer parecer pessimista, ouso afirmar: cobra mais caro.
Attraversiamo.
Vamos atravessar.
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