“Se eu machuco alguém, eu reconheço isso, peço desculpas e posso mudar.” A frase, dita pela personagem Kym (interpretada por Anne Hathaway) no filme “O casamento de Rachel”, durante uma das reuniões do AA, assinalou uma busca da personagem por responsabilidade e maturidade na sobriedade. Kym era caótica, turbulenta, inconstante, intensa, desequilibrada e excessiva. Mas, do jeito dela, estava tentando melhorar. Da maneira dela, estava buscando se redimir e recuperar o afeto de quem amava.
Relações saudáveis são vias de mão dupla, e nunca, jamais, podem ser espaços onde reina o poder, seja de que forma for. Porém, somos seres imperfeitos, confusos e incompletos, nem sempre agimos de forma coerente ou correta. Por medo ou autoproteção, por orgulho ou excesso de defesa, podemos nos fechar e simplesmente abandonar a “casa – comum” quando surge um conflito. Ou podemos nos enfurecer, bater portas e falar alto quando nos sentimos ameaçados. Nenhuma das duas formas é saudável, nenhuma das duas formas é justificável ou demonstra maturidade.
Às vezes, a única resposta que você precisa é observar como uma pessoa lida com um conflito. Toda casa parece segura quando não venta. Porém, é quando o tempo muda que a gente escuta as janelas, percebe onde o teto range, descobre as goteiras, rachaduras e falta de firmeza do solo. Também é nessa hora que a gente percebe quem transforma qualquer desentendimento em uma porta batida e quem sabe ficar na sala, mesmo quando a conversa pesa. Há quem consiga dormir depois de uma conversa difícil, e há quem passe a noite andando pelos cômodos da própria cabeça. É no conflito que a gente descobre quem ainda procura a nossa mão no escuro, e quem aproveita a escuridão para ir embora.
Nos dias tranquilos quase todo mundo sabe ser gentil e dizer “eu te amo”, quase todo mundo consegue mandar uma mensagem bonita e encostar a cabeça no ombro do outro. Mas a vida não é só mar calmo – aliás, “mar calmo nunca fez bom marinheiro” – e ela se revela também (e principalmente) nos abismos, na palavra torta, no orgulho que encontra uma fresta, no medo que se apodera dos cômodos, no ciúme que se infiltra pelo azulejo, na presença que se torna desconfortável. Quem permanece para recolher os cacos de um amor despedaçado? Quem procura culpados? Quem abandona a relação e se esconde atrás de uma porta fechada? É no intervalo entre o afeto e o incômodo que a gente encontra a resposta que precisa, e descobre que ela está menos no amor que alguém declara e mais na maneira como essa pessoa cuida da história quando ela deixa de ser bonita.
Kym, a personagem de “O casamento de Rachel”, compreendeu (ou chegou muito perto de compreender) que depois de quebradas, algumas coisas nunca voltam a ser como antes. Ainda assim, havia nela uma tentativa de olhar para o estrago, reconhecer a própria parte, pedir desculpas e permanecer tempo suficiente para fazer alguma coisa com aquilo. Quantos de nós voltaremos à casa após a tempestade? Quantos de nós teremos coragem de entrar na sala onde as coisas foram ditas, olhar para as janelas quebradas, reconhecer as rachaduras que também são nossas e dizer: “eu estive aqui, eu fiz parte disso, eu sei o que deixei quebrado e quero reparar”? Há quem consiga abandonar uma relação sem nunca voltar os olhos para a casa que deixou para trás. Nenhum pedido de perdão, nenhum arrependimento, nenhum reconhecimento de sua parcela de culpa. Do outro lado, há uma solidão particular em descobrir que a pessoa que ajudou a provocar o incêndio segue a vida, enquanto você ainda tenta entender como apagar a fumaça.
Na casa de Kym e Rachel, o luto se espalhou por todos os cômodos. Está nas conversas interrompidas, nas pequenas hostilidades, nos assuntos proibidos, nas lembranças que invadem sem aviso. As irmãs se ferem, competem, acumulam ressentimentos e lançam uma contra a outra pequenas crueldades cuidadosamente embaladas em frases aparentemente banais. Mas basta um instante para que alguma coisa desarme. Um olhar, um gesto, uma lembrança — e aquilo que parecia prestes a explodir encontra um lampejo de ternura. É justamente essa contradição que torna essa família tão humana. Ninguém é apenas vítima, culpado, amoroso ou cruel. O filme não parece interessado em organizar essas pessoas em categorias confortáveis, nem em dizer quem está certo ou errado. Apenas nos coloca diante deles e nos deixa assistir ao que fazemos uns com os outros quando estamos feridos demais para amar com delicadeza.
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