Cristiane Mendonça

Nosso coração é de ferro, mas enferruja

Onde estão a mãe que embala o filho pequeno e o jovem estagiário? O mecânico, pai de família, e a bióloga que amava a natureza? Onde estão o rapaz que sonhava se formar esse ano, o homem que pensava no que teria para o jantar quando chegasse em casa, a moça que combinava um encontro com as amigas, o irmão que havia ligado um pouco antes.

Onde eles estão, enquanto suas famílias são dilaceradas pela ausência, dominadas pela dor e a incerteza, cujos olhares estão fixos em uma lama que sufoca, com tanta violência, a fala!

As casas e as histórias de vida, as hortas e as colheitas, as criações e os quintais, as gentes e os seus sonhos, ali não estão mais. Nessa lama de rejeitos, onde se enterram tantos ais, fazemos perguntas tão sérias e tão banais!

E diante das notícias da TV e das mensagens via celular, nosso luto se torna mais forte que esse Estado mineral. Nosso coração é de ferro, mas enferruja! Se cansa, se entristece… Afinal, quanto vale o lucro diante de uma única vida? Quanto vale o lucro diante de centenas de vidas?

Perplexos, temos todos essa resposta. Basta que olhemos nos olhos de quem amamos e façamos a seguinte pergunta: E se fosse com ele? E se fosse, meu filho?

Mas, na cidade que carrega o nome de bruma, enevoado está nosso pensamento, indignada está a nossa fé! E não há de passar um só dia em que alguém não se lembre dessa tragédia anunciada, que não chore pelo seu ente querido ou que não se vista de força para lutar pela memória de quem se ama. Pois, tudo agora é tão recente e doloroso, que só uma pergunta importa:Onde eles estão?

***

Imagem de capa meramente ilustrativa.

Cristiane Mendonça

Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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