Marcel Camargo

Quando sentir saudade de mim, ligue para seus contatinhos

Ela se encontrava bem no meio da dor, no centro da escuridão de seus próprios medos. O que ela temera por anos aconteceu: ele tinha ido embora. Fazia apenas alguns dias, mas ela sentia a saudade de uma vida toda. Sentia que aquela saudade nunca mais sairia de seu corpo.

Estava evitando conversar com as amigas, mesmo que por mensagens, porque só iria ouvir “vai passar”, “foi melhor assim”, coisas em que ela não estava pronta para acreditar. Ali, desamparada e sozinha, ela só acreditava que era a mais infeliz das mulheres, que jamais voltaria a ser feliz, que não sobreviveria sem ele.

Não queria tomar banho, comer, sair, assistir a nada, entrar em nenhuma rede social. E coragem para mudar o status do facebook? E coragem para ver aquelas fotos de um relacionamento que desejava ser eterno? Ela só queria de volta o seu amor, a sua vida, que lhe parecia agora incompleta, vazia e miserável.

Na semana seguinte, ela já ensaiava um coque novo nos cabelos e até mesmo conseguia escolher roupas, olhando-se ao espelho – mas ainda sem se encarar de frente. Seus olhos se desviando de si mesma o tempo todo. Fim das férias, voltara ao trabalho, onde conseguia preencher sua mente com coisas que não tinham seu ex no meio. Porque ele ainda invadia seus pensamentos quase que o tempo todo, se ela se distraísse.

Passados uns poucos meses, ela não o esquecera, mas conseguia falar dele sem nó na garganta. E já estava decidida a parar de correr atrás dele, o que fez inúmeras vezes após o rompimento, por telefone, por mensagens, e, quando ele a bloqueou, ela ainda bateu à porta dele, mas não foi atendida. Chega uma hora em que a dor da rejeição acaba vencendo o desespero e ela não mais o procurava há dias.

Um dia, voltando para casa a pé do trabalho, percebeu um olhar diferente de um moço caminhando ao se encontro. Fazia tanto tempo que ela não sentia olhos de admiração voltados para si, que até assustou. Sorriu acanhada e baixou os olhos. O braço dele roçou o seu quando cruzaram o mesmo espaço e ela sentiu um arrepio delicioso, como há tempos não sentia.
Mas ainda não estava segura o bastante e nem olhou para trás. Ainda estava por demais ferida e não queria que seu coração se abrisse de novo. Estava decidida a ficar sozinha, pois, lá no fundo, ainda amava o ex. Não admitia para ninguém, porém, amava, sim. Não que tivesse esperança de uma volta, mas queria aquilo de novo.

Felizmente, por mais que tentemos nos enganar, a nossa memória encontra um jeito ou outro de nos lembrar o quanto sofremos para chegar onde estamos. Talvez como uma estratégia emocional de sobrevivência, ela começou a rememorar o que nele não era legal: as mensagens de contatinhos, os perfumes diferentes na camisa, as sumidas depois do trabalho, antes de chegar em casa. Aquele “você está louca!” agora soava como um grito cortante.

Com o tempo, ela acordou sem vontade nenhuma dele. Ela nem se tinha dado conta ainda, mas o futuro, dentro dela, estava bem maior do que o passado – é quando começa o reerguimento completo, é quando a autoestima se encontra e volta a nos encontrar. Dali em diante, ela foi se tornando sua prioridade, ensaiando olhares de paquera e sorrisos sem censura. E foi assim que seu coração voltou a se abrir. Ela sabia que amaria de novo.

Ela amaria de novo, porque ela voltara a acreditar em si mesma, em tudo de bom que ela possuía e que deveria ser compartilhado. Ela não aceitaria mais viver sozinha em nenhum relacionamento a dois, pois tinha se reestabelecido emocionalmente e estava forte o bastante para receber somente o que merecia e para se recusar à solidão acompanhada. E ela amou, ela amou com força e com dedicação. Agora ela tinha a determinação que antes lhe faltava e não forçaria amor onde não tivesse amor algum. Não mais aceitaria qualquer porcaria.

Dia desses, ela recebeu uma mensagem do ex, que dizia: “saudades, como vai?”. Ela nem iria responder, mas, como revidar de leve às vezes faz bem, ela somente digitou: “quem é? não tenho esse número salvo no meu celular, você deve ter errado ao digitar”.

Não houve mais mensagens. Mas ela sabia que, finalmente, ali naquele momento, enquanto ele certamente estava se remoendo, ela seguia feliz e em paz. Como sempre seria dali em diante.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

Share
Published by
Marcel Camargo
Tags: contatinhos

Recent Posts

Às vezes, a única resposta que você precisa é observar como uma pessoa lida com um conflito

"Se eu machuco alguém, eu reconheço isso, peço desculpas e posso mudar." A frase, dita…

6 dias ago

O Vazio por Trás do Monitor: Por Que a Solidão em Jogos Online É um Sentimento Compartilhado

Em um mundo hiperconectado, milhões de pessoas sentam-se diariamente diante de monitores brilhantes em busca…

2 semanas ago

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

3 meses ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

3 meses ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

3 meses ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

3 meses ago