Ivonete Rosa

“O pior estranho é aquele com quem já convivemos”.

Li, um dia desses, numa rede social, a seguinte mensagem: “ O pior estranho é aquele que um dia conviveu com a gente”. Me peguei pensando muito sobre isso e decidi transformar o pensamento nesse texto.

De verdade, penso que deveria existir uma lei, uma força maior que proibisse que o amor fosse transformado em ódio. Tudo bem, já sei que alguém pode discordar de mim e dizer que o amor verdadeiro jamais acaba. Então, vamos por outro caminho. Deveria ser proibido que um relacionamento, que foi tão gostoso por algum tempo, se transformasse em dor ou ferida na vida de alguém.

Gente, acredito que um dos piores lutos é aquele em que a gente tem que matar alguém que vive dentro da gente. Sabe, é aquela briga feia entre o coração e o cérebro. De um lado, a razão toda imperativa, elencando todas as razões para excluirmos aquela pessoa dos nossos pensamentos. De outro lado, o nosso coração, chorando feito uma criança que teve o seu brinquedo tomado à força. Fica aquela queda de braço insuportável.

De uma hora para outra, o coração recebe uma intimação do cérebro para se posicionar contra, justamente, alguém que é o motivo de ele bater mais acelerado, feliz e eufórico. Ah, com é doloroso esse esforço para desgostar de quem amamos. Que tarefa árdua essa de tentar mostrar ao coração que abusaram da boa fé dele. Com diz no popular: é muita judiação!

É dolorosa demais essa missão de transformar encanto em ressentimento. Eu estou falando dos amores que acabam em dores porque alguém se machucou profundamente. Seja porque faltou lealdade, seja porque faltou respeito, seja porque faltou consideração, seja porque faltou responsabilidade ou qualquer outra postura que evitasse esse rombo nas emoções de quem acreditou e se jogou numa relação. E não me venha dizer que errado é quem se apegou. Calma aí! Se a pessoa está numa relação na qual ela é alimentada o tempo todo de forma a acreditar que está vivendo algo verdadeiro, ela está, sim, no direito de criar apego. Pessoas não são máquinas com botões de liga e desliga, sentimentos são construídos em cima de reforçamentos que o parceiro oferece. Até porque não faz sentido se relacionar com o freio de mão puxado o tempo inteiro.

Então, dependendo do tipo de ruptura que um relacionamento teve, sairão dele, dois inimigos, ou, na melhor das hipóteses, dois estranhos. Dois estranhos que um dia se entregaram e se conheceram em suas versões mais encantadoras. Dois estranhos que conhecem as fragilidades um do outro. Dois estranhos que um dia se pertenceram sem reservas e, que hoje, se resumem em contatos bloqueados nas redes sociais um do outro.

Ivonete Rosa

Sou uma mulher apaixonada por tudo o que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e psicologia. Escrevo por qualquer motivo: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel.

Share
Published by
Ivonete Rosa
Tags: estranho

Recent Posts

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

4 semanas ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

4 semanas ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

4 semanas ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

4 semanas ago

Os Benefícios de Ter Hobbies Online: Apostas e Jogos com Equilíbrio

Nos dias de hoje, os hobbies online fazem cada vez mais parte da rotina de…

4 meses ago

Como os Jogos Online Podem Estimular a Mente

Durante muito tempo, os jogos online foram vistos apenas como uma forma de entretenimento leve,…

4 meses ago