Marcel Camargo

Às vezes, a gente deixa o outro ir, mas continua amando.

Assistindo à segunda temporada de “13 reasons why”, dia desses, a seguinte fala de uma personagem me chamou a atenção e me fez refletir sobre a vida em si: “É possível deixarmos as pessoas irem embora e continuarmos as amando.” Tratava-se, no caso, de uma situação que envolvia a amizade entre duas pessoas que a distância iria separar. Mas creio que pode ser aplicado a diversas situações pelas quais passamos.

Eu, por exemplo, já tive que me forçar a deixar o outro ir e continuei mantendo-o aqui dentro de mim, com amor e carinho. Foi assim com minha mãe. Quando o câncer lhe retirava todas as forças, eu tive que dizer para ela que estava na hora de ela partir, que sua missão tinha lindamente sido cumprida, que ficaríamos tranquilos aqui. Foi um dos momentos mais dolorosos de minha vida e até hoje esse amor que nos uniu está dentro de mim.

Já tive amigos que partiram desta vida, que partiram para outros lugares, deixando de fazer parte de meu dia a dia, e que, mesmo assim, ainda são especiais e presentes em meus sentimentos. É assim com pessoas, é assim com lugares, é assim com nossos bichinhos. Pessoas vão embora, de uma ou de outra forma. Animais têm vida curta e nos deixam também. A vida nos leva daqui até ali adiante. Tudo muda.

Nossa sobrevivência depende, em muito, desse desprendimento, dessa permissão, dessa anuência que somos obrigados a dar ao que sai de nossas vidas, ao que vai embora, muitas vezes de uma vez por todas. Quando aceitamos o adeus, a gente acaba se libertando e deixando o outro livre para cumprir o seu destino, que nem sempre será junto de nós. E cá também nós ficamos mais fortes para abraçar o novo, que todos os dias vem.

Sim é possível deixarmos ir, mas continuar amando, porque aquilo que se construiu com dedicação e amor verdadeiro não sai de dentro de nós. O carinho e as lembranças do que foi especial continuarão nos mantendo vivos e capazes de seguir, rearranjando nossas emoções e os espaços que ficaram vazios, lá fora e aqui dentro de nossa alma. O amanhã nos acorda sempre, cheio de oportunidades, ainda que não queiramos enxergar. Enquanto continuarmos amando, sobreviveremos. É assim que a gente continua.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar".

Share
Published by
Marcel Camargo
Tags: outro ir

Recent Posts

Às vezes, a única resposta que você precisa é observar como uma pessoa lida com um conflito

"Se eu machuco alguém, eu reconheço isso, peço desculpas e posso mudar." A frase, dita…

6 dias ago

O Vazio por Trás do Monitor: Por Que a Solidão em Jogos Online É um Sentimento Compartilhado

Em um mundo hiperconectado, milhões de pessoas sentam-se diariamente diante de monitores brilhantes em busca…

2 semanas ago

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

3 meses ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

3 meses ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

3 meses ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

3 meses ago