Passei um tempo ali à sombra observando as crianças de quatro ou cinco anos, correndo com suas perninhas miúdas pro mar. Eles iam, iam e iam, como se fossem furar a primeira e depois a segunda onda. Como se as ondas duras fossem escorregadores e não muros. Atrás de mim, o coro de mães alertava dos perigos todos. Corriam uns metros gritando e tomando ar, catando as roupinhas em miniatura – Volta pra cá, menino! – Não temer é mesmo de um perigo danado.

Eu sorri e desejei profundamente um tantinho daquela inocência de volta. Um décimo daquela coragem desajuizada. Um milésimo daquela curiosidade desprecavida. Eu sorri e desejei ser criança, mas também ser onda. Ser coragem, mas também sabedoria. Ser pureza, mas ainda ter comigo minhas andanças. Desejei, mesmo sabendo que era impossível.

Desejei conhecer alguém de minha altura e entender que isso já era o bastante para sermos amigos. Aprender a dizer seu nome e desenvolver confiança. Desejei outra vez apenas dizer – Vamos ser amigos? – e estar tudo resolvido: seríamos mesmo amigos. Bastava isso.

Desejei não temer nada que fosse maior que eu. Desejei ter a loucura, a pureza, a quase demência autorizada e somente me apaixonar outra vez. Não gostar, não querer, não amar, mas se apaixonar descontrolada e deliciosamente. Lembra?

Desejei uma corrida despreocupada com o ridículo, um descabimento para as roupas que não faziam sentido, um alinhamento improvisado com os meus próprios joelhos depois de já ter corrido. Desejei um olhar impetuoso adiante, um frio na barriga por tão pouco, um achar graça de nada ou de tudo. Desejei um tempo incompreensível em que relógios e calendários eram um estrangeirismo.

E no exato instante em que desejei o impossível, eu me tornei aquilo que desejava. Um tempo depois, crianças todas recolhidas e em segurança longe da água, foi minha vez de correr. Corri o mais rápido que pude. O mais ridiculamente que soube. Percebi que ser gigante também tem lá suas virtudes.

No último instante, eu furei a onda. Não havia ninguém para me dizer que não era possível. Há ainda um lapso de doçura morando em cada um de nós. Basta ir.

Imagem de capa: Romrodphoto, Shutterstock

Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

Share
Published by
Diego Engenho Novo
Tags: pequeno

Recent Posts

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

1 mês ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

1 mês ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

1 mês ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

1 mês ago

Os Benefícios de Ter Hobbies Online: Apostas e Jogos com Equilíbrio

Nos dias de hoje, os hobbies online fazem cada vez mais parte da rotina de…

4 meses ago

Como os Jogos Online Podem Estimular a Mente

Durante muito tempo, os jogos online foram vistos apenas como uma forma de entretenimento leve,…

4 meses ago