Pamela Camocardi

“Cem anos de solidão” e o tapa na cara da sociedade que aprendeu a valorizar depois de perder

Publicada em 1967, a obra prima de obra de Gabriel García Márquez, relata a história latino-americana onde guerras e solidão imperavam a partir da árvore genealógica da família Beundía.

Premiada com o Prêmio Nobel da Literatura, em 1982, a obra é um convite à reflexão da própria condição humana, a partir do meio que está inserido. Nas palavras do próprio autor “Cada linha de Cem Anos de Solidão tem o ponto de partida na realidade. Eu forneço uma lente de aumento para os leitores entendê-la”.

O livro é fantástico. Logo na primeira página, o autor apresenta a árvore genealógica da família Beundía – fundamental para que o leitor entenda a narrativa em toda a sua plenitude- além de possuir uma peculiaridade literária: em qualquer página em que a obra é aberta, há um trecho que leva o homem a refletir sobre o próprio comportamento e sobre as consequências do mesmo na sociedade.

Márquez com sua escrita ímpar, promove constantes flashbacks e faz inserções de um enredo dentro do outro, o que se torna um problema para os novos leitores e uma riqueza literária para os antigos.

Um dos temas apresentados na obra é a forma como as pessoas valorizam a vida diante da morte: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade”.

Nesse trecho, o autor leva o leitor a refletir sobre o que tem sido priorizado em nossas vidas, em que nosso tempo tem sido gasto e como nos relacionamos com quem, realmente, nos ama.

A frase, impossível de passar despercebida, consta logo no início do enredo e dá um verdadeiro soco de realidade na face dos materialistas. Momentos felizes, chuva no final da tarde, gargalhadas espontâneas são essas as situações que, realmente, importam. Márquez dizia que “todo mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpada”.

No romance temos a impressão que Márquez grita que o tempo não existe. Que não o possuímos e que, nada, absolutamente nada, está sob nosso controle. Para ele, a vida acontece nos instantes e que o futuro não passa de uma esperança. “Para mim é suficiente ter a certeza que tu e eu existimos neste momento”.

Para Márquez, não é amanhã que a vida acontece, é agora. Não é o quanto você tem que importa, mas quem você tem para dividir os momentos. Não são os medos que você enfrenta para sobreviver, mas quantos você conseguiu superar. Isso se comprova no curioso capítulo em que as pessoas se perdem no tempo e esquecem o nome das coisas e, para lembrarem, colaram bilhetinhos com os nomes nos objetos, nas plantas, nos animais, nas pessoas, em tudo.

A verdade é que não há como ler Gabo – como é carinhosamente conhecido – sem ir a nocaute e nos levantarmos pessoas melhores. Suas obras nos levam ao autoconhecimento e são capazes de traduzir nossos sentimentos diante das situações diversas da vida.

“A solidão, para mim, é o contrário da solidariedade”. (Gabriel García Márquez)

Pamela Camocardi

A literatura vista por vários ângulos e apresentada de forma bem diferente.

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