Clara Baccarin

Entre em tudo o que fizer de corpo inteiro e de mente entregue

Imagem de capa: Jacob Lund, Shutterstock

Entre em tudo o que fizer de corpo inteiro e de mente entregue.

Os aprendizados do mundo se dão pelos sentidos, todos alertas. Leia um parágrafo de um livro e pare, respire, reflita. Leia um poema e mergulhe, que poemas são feitos de palavras que tem funduras e há de se perder um tempo para brincar com elas e desvendá-las e sentir suas multiplicidades.

Ao tocar o amor, entregue-se, não fique segurando num galho de razão, caia no precipício.

Dissolva as armaduras da outra pessoa para poder adentra-la.
Amar é um agora, amanhã pode ser dor, solidão, nada… Mas amar sem entrega é vestir um sobretudo cinza mesmo quando o sol brilha em nossos corações, é viver acostumado com invernos, é viver num medo para evitar a dor. E isso já não é amor.

Saia das margens, tudo ao redor é perceptível, tudo ao redor é movimento, o mundo não é uma fotografia em que você anda sozinho em seu repetitivo monólogo. Participe, interaja, traga pra dentro, a vida não é um cenário, tudo nela protagoniza. Tudo ao redor inspira.

Entre na alma das coisas, use-se como experiência, vasculhe-se, vasculhe o mundo. Coloque as mãos nas massas. Toque todas as texturas, toque a ferida, olhe-a, entenda a sua composição, limpe com cuidado para cicatrizar, deixe ter seu tempo. Não ignore a dor e nem a alegria.

Olhe o amor nos olhos, abra-se com sinceridade e recolha-se se não for reciproco.
Recolha-se se ver nos sentidos do outro medo e orgulho. Contemple a solidão, contemple só o que se abre, o que se estampa, o que se deixa, o que tem coragem.

Uma flor tem tanta coragem e está ali pronta para ser amada. Um bicho tem tanto amor incondicional. Um livro tem tantos diálogos tão mais interessantes que muitas pessoas.

Há tantos aprendizados no mundo. Eu só aprendo se mergulho. Eu só aprendo se presto atenção constante, eu só aprendo pela paixão.

O aprendizado por osmose é muito lento, não há tempo para esperarmos o mundo entrar e as coisas fazerem sentido. Se nos fazemos máquinas, passivas, só iremos absorver as mensagens subliminares e elas são perigosas: compre, beba, tenha, seja.

Fique alerta, questione, desestruture, dê voltas em tudo o que vem pronto. Saiba descortinar, não acredite em falas, acredite no olhar. Acredite no toque, acredite nas atitudes.

Falas têm muitas camadas de significados, muitas vezes há tantas intenções por trás.

Não acredite em palavras, acredite em gestos. Leia os corpos. Ouça músicas, leia livros, brinque com crianças, geralmente elas têm muito mais para ensinar, sem dissimulação.

Não perca tempo com o que te atrasa. Não entre na cansativa e rasa dança dos jogos. Ande nu, encontre o grupo dos que andam nu. E deixe de lado os sobretudo.

Não saia ileso dessa vida, não queira sair.

Evolua na sua própria pele.

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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