Categories: Guilherme Moreira Jr.

Viver “Sem Medo de Viver”

O que é viver? Em 1993, Sem Medo de Viver (Fearless) estreou nos cinemas dialogando com essa possibilidade. Indo na contramão do provérbio “para morrer basta estar vivo”, o filme protagonizado por Jeff Bridges, corrompe essas barreiras que, por vezes, nós imaginamos estarmos enclausurados.

Na trama, Bridges vive o arquiteto Max Klein, um dos poucos sobreviventes de um trágico acidente aéreo. Mas Klein é diferente. O acidente transforma-o. No lugar do medo típico, a personagem atravessa a linha tênue mais desafiadora – a coragem de colocar-se acima do destino. Mas a mudança não ocorre por um senso de divindade. Klein simplesmente desperta para um único objetivo que é o de viver plenamente. Saborear cada experiência de forma única e sublime. Sem ressalvas. Sem privações. Acontece que, a metamorfose gera conflitos com a sua esposa e filho. Eles não entendem. Ninguém entende. Tentando ajudar, um psicólogo (John Torturo), o coloca em contato com outra sobrevivente que não enxerga a fatalidade sob o mesmo olhar. Carla Rodrigo (Rosie Perez), uma mãe acometida pela perda do filho na queda do avião. E nessa troca absurda à primeira vista, nasce uma cumplicidade além dos conhecimentos e sentimentos dos familiares de ambos e até mesmo do próprio psicólogo.

A direção ficou por conta do denso Peter Weir, cineasta sensível nos aspectos direcionais administrados para os seus atores. O roteiro de Rafael Yglesias casa perfeitamente aos sentidos exacerbados nos diálogos pulsantes e os belíssimos planos conduzidos por Weir. Por si só, Sem Medo de Viver carrega uma condição daquilo que poderíamos chamar de uma aventura sobre a vida. É também sobre escolhas. O debate e a premissa, aparentemente espiritualista e filosófica, certamente não seria um mal veredicto se cada passagem transcorrida na produção também não agregasse um viés de autoconhecimento e assertividade. É a mais pura demonstração de resiliência e capacidade de nós, enquanto seres humanos, de realmente vivermos fora do manto mundano e rotineiro com o qual somos apresentados desde o nosso nascimento.

Absolutamente coeso e emocional, Sem Medo de Viver é um deleite visual e afetivo dos mais sinceros. Demanda, talvez, uma certa abertura de quem assiste para poder imergir na poesia e nos diferentes aspectos disseminados. Mas não há restrição alguma ao coração. Faz bem para todos os desígnios imaginados dos quais sejamos apreciadores ou praticantes, diga-se. Uma obra-prima pouco reconhecida e conhecida por grande parte do público, infelizmente.

Gui Moreira Jr

"Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro"

Share
Published by
Gui Moreira Jr

Recent Posts

Viver é uma tarefa muito maior que sobreviver

Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos…

4 semanas ago

O maior souvenir de uma viagem é a versão de nós mesmos que a gente traz de volta

Andei afastada de mim. Sem energia e desconfiada de minhas percepções, do modo como me…

4 semanas ago

Attraversiamo: vamos atravessar

No final de Comer, Rezar, Amar, Liz Gilbert diz: “Eu escolhi a minha palavra: Attraversiamo. Significa: ‘vamos…

4 semanas ago

Há alegrias que duram menos que um verão e, ainda assim, atravessam a vida inteira

Após assistir ao filme "A vida de Chuck", inspirado em um conto de Stephen King,…

1 mês ago

Os Benefícios de Ter Hobbies Online: Apostas e Jogos com Equilíbrio

Nos dias de hoje, os hobbies online fazem cada vez mais parte da rotina de…

4 meses ago

Como os Jogos Online Podem Estimular a Mente

Durante muito tempo, os jogos online foram vistos apenas como uma forma de entretenimento leve,…

4 meses ago