O Homúnculo de Penfield é um desenho usado para representar como nosso cérebro “enxerga” nosso corpo. Diferente do que se imaginava, algumas partes têm representações maiores dentro do cérebro, enquanto outras ocupam um espaço menor, dada sua menor necessidade de sofisticação sensorial e motora.Desse modo, descobriu-se que a imagem corporal é construída de acordo com as percepções, idéias e emoções sobre o corpo e suas experiências. Sendo assim, o fantasma de um membro amputado seria a reativação de um padrão perceptivo dado pelas forças emocionais. Como o ser humano está acostumado a ter um corpo por completo, o fantasma acaba sendo a expressão de uma dificuldade de adaptação a um defeito súbito. Além disso, como o Homúnculo de Penfield bem representa, temos um mapa sensorial em que a região amputada continua a ser representada no cérebro. Porém, como não existe, ainda, uma cura para o fascinante fenômeno das sensações fantasmas, muitos indivíduos precisam se adaptar a essa situação.

Assim também nos adaptamos a mudanças. Leva tempo até a mente entender que a vida mudou, que precisa se reajustar a uma nova rotina, a novos padrões de comportamento e reagir de forma diferente aos estímulos.

Às vezes nossa percepção falha. E minha teoria é que falta-nos coragem para mudar essa percepção. Nos apegamos ao que foi amputado e perdemos a noção do que é real.

Damos importância demais a coisas muito pequenas e valorizamos pobremente o que merece ser reverenciado.

Alguns acontecimentos e pessoas permanecem tendo representações gigantescas em nossas mentes, ainda que insignificantes em nossas vidas.

Acontece que o cérebro não se atualiza sozinho. Por mais que doa, é preciso que a fantasia dê lugar à realidade; a negação, à verdade.

É preciso acreditar que aquela dor já passou… Ter forças para mudar, para acatar as mudanças, perceber o mundo à sua volta com olhos de novidade, ter coragem de encarar o desconhecido.

Repetimos padrões, acostumados ao que denominamos “nossa história”_ ao que acreditamos que ainda  nos define ou dê forma. Porque somos programados a permanecer naquilo que é conhecido: nossa vida, nossa rotina, nosso mundo, nosso passado…
Mas o que nos faz recomeçar é o inesperado. Sempre é.
E de vez em quando temos que nos submeter ao imprevisível_ quer queira, quer não.

Aquilo que te pega de surpresa, num dia comum… a partir do qual tudo muda.
São novas chances, não apenas tormenta. Novas possibilidades, não apenas provações.
E você sofre porque terá que reformular o desenho cerebral. O mapa tão conhecido que te conduziu até aqui.

É doloroso. Mas também bonito. Você ainda não enxerga beleza, mas uma hora olhará pra trás com entendimento e perceberá que foi capaz de rearranjar-se novamente.

O inesperado foi uma benção. Sempre é.

Para comprar meu novo livro “Felicidade Distraída”, clique aqui.

Imagem de capa: Oleksandr Kolesnyk / Shutterstock

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS




Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here