Possibilidades

 Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio que partiu esta semana, escreveu certa vez:  "Cada mundo contém muitos outros mundos possíveis. Neste mundo, há outro mundo possível".

 Gosto de pensar que somos possibilidades que se concretizaram. Reais, mas ainda assim, possibilidades. Dentro de cada mundo, muitos outros mundos possíveis.

 Todos os dias, ao acordar, o local onde espreguiçamos diz muito sobre as escolhas que fizemos até o momento. Minha cama está embaixo de um teto que escolhi como abrigo, numa cidade que me acolheu para viver e trabalhar. Meu marido é alguém que cruzou o meu caminho e por uma série de razões escolhi para me acompanhar. Nosso filho é parte desta escolha, a melhor possibilidade que poderia ter me ocorrido.

 Tudo o que nos cerca um dia foi uma possibilidade. Alguns eventos poderiam ter sido evitados, outros não. Sobre o que não dependeu de nossa escolha, surgem diversas outras possibilidades _ que também podem ser encaradas como respostas.

 Talvez seja essa a maior possibilidade que temos: aprender a responder aos eventos, escolhidos ou não, da melhor maneira possível. Aprender a fazer malabarismo com o mundo que se apresenta possível à nossa frente, tentando extrair dele o melhor desfecho que pudermos.

 A liberdade de responder aos eventos é a maior possibilidade que temos. É o que faz nosso mundo possível ser bom ou ruim, independente das possibilidades inseridas nele.


Nove anos

 Nunca soube de fato quando foi que aprendi a assobiar. O momento em que meus lábios fizeram a curva exata, formando o arco por onde passaria o ar.
 Talvez você vá se esquecer também _ esses singelos trunfos se perdem pelo caminho _ mas agora, na última semana que antecede seus nove anos, o som de seu recente assobio acusa o tempo da simplicidade, os vestígios de uma época que valoriza os pequenos gestos, o encontro com as alegrias miúdas, muitas vezes esquecidas no decorrer da jornada.

 Seu aniversário chegou hoje, me lembrando as horas daquele dia, há nove anos. Eu não sabia, mas descobriria mais tarde que a vida também é feita de assobios, arquitetura de gravetos, aviões de papel e histórias fantásticas ao cair da noite.
 Hoje, o que me move é estar consciente desses momentos, pois são vapores, e o embaçado do tempo deforma as certezas enquanto rapidamente crescemos.

"Que o amor nos salve da vida..."



 Essa semana recebi o email de uma leitora, brasileira residente em Dallas, contando sua história. Me pediu um texto. Embora não costuma fazer textos sob encomenda, algo me despertou, e recordei a frase atribuída ao poeta e escritor Pablo Neruda (na realidade a frase é de Javier Velaza), que diz:  "Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida"... 

 Pois a vida é uma experiência dura, muitas vezes confusa, incompreensível e incerta; e reconhecer um abrigo no meio de tanta inquietude é acolher o tempo da clareza, em que tudo passa a ser suprido de sentido.

"A gente só enxerga o que já está preparado para ver"


Peguei a frase-título emprestada do escritor Bernardo Carvalho porque hoje tive uma grata surpresa. Descobri, da melhor maneira que eu poderia imaginar, que ainda há fome de poesia e afeto, de gratidão e gentilezas.

 De vez em quando a gente só consegue enxergar aquilo que está escrito em letras garrafais. Relutamos em aceitar as entrelinhas das despedidas, do mesmo modo que demoramos para acatar a irrefutável verdade de que carregamos dons, temos potencial para sermos amados, e somos melhores do que imaginamos.

A primeira prova

 Uma das frases mais marcantes em "Boyhood" foi aquela, dita pela mãe, quase no final do filme: "Eu só achei que haveria mais".
 Sempre achamos que haverá mais. E constatamos admirados, dia após dia, que sempre há. Porém, nunca do mesmo jeito. Apesar de não nos surpreendermos de imediato, chega uma manhã em que nos formamos na faculdade; um dia em que corremos pra maternidade; uma noite em que os filhos crescem; uma hora em que a gente envelhece.

 Hoje meu filho está fazendo sua primeira prova na escola, e mais cedo apontei seu lápis desejando que saiba lidar com o que virá depois. Depois de descobrir que algumas coisas a gente não pode mudar, mesmo que recorra à borracha insistentemente. Depois de perceber que uma hora ou outra vai duvidar de si mesmo, julgando-se pequeno ou incapaz de prosseguir. Depois de descobrir que pode recomeçar, e que existem inúmeros jeitos diferentes de tentar e arriscar.

Números

 Outro dia, relendo "O Pequeno Príncipe" para meu menino, estacionei numa passagem.

 Assim dizia: "As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: 'Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que preferem? Será que ele coleciona borboletas?' Mas perguntam: 'Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?' Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dissermos às pessoas grandes: 'Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...' elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: 'Vi uma casa de seiscentos contos'. Então elas exclamam: 'Que beleza!'"

É sempre o agora

 Alguns enredos comovem pela simplicidade. Por andarem lado a lado com a existência, dando significado àquilo que poderia ser retratado como um acontecimento banal. Por falar de nós a nós mesmos, decifrando com sensibilidade o que vivemos e sentimos rotineiramente, traduzindo em sons e imagens aquilo de que é feita a vida _ uma sequência de acertos, desacertos e desafios que experimentamos diariamente _ modulados pela inexorável passagem do tempo.

 Um pouco atrasada, assisti ao filme "Boyhood _ Da infância à juventude" durante o carnaval. Não falaria do filme aqui se não tivesse sido completamente arrebatada por sua simplicidade. E apesar das inúmeras publicações, resenhas e críticas ao filme, ainda assim senti-me impulsionada a deixar minha impressão.