Certezas


 Estou adorando o livro "Nós", de David Nicholls. O romance é leve e divertido, e já no começo nos compadecemos de Douglas Petersen, o personagem principal, que uma noite é acordado pela esposa e se depara com um pedido de divórcio repentino. Era só mais uma madrugada, uma madrugada comum, e no entanto ele agora tinha que lidar com aquilo que não esperava.

 A gente só cresce quando a vida desafia algumas de nossas certezas. A vida linear, do jeitinho que a gente planejou, seguindo o script de nossos anseios e vontades, não nos tira do chão nem exige ousadia de parte alguma. Mas o susto... O susto nos arranca de nossas poltronas e nos faz ser mais fortes do que pensamos. O susto nos impulsiona a agir mesmo quando nos moldamos à comodidade de nossa rotina, e nos estimula a seguir adiante desembaraçando os nós e costurando novos arranjos.

 Você pensa que está no controle de tudo. Faz exames, tem uma aplicação segura no banco, usa fio dental regularmente, carrega o guarda chuva no porta luvas do carro, está em dia com o plano de aposentadoria. Mas seu excesso de zelo não o protege da porção da vida que está aí para lhe surpreender. Para provar que mesmo tentando controlar tudo, você não tem controle sobre nada. Para ensinar que você tem que aprender a andar com menos segurança, habituando-se a dizer: "Simplifica!" pros prazos apertados e pras urgências desnecessárias.

 Na vida temos certeza sobre quase nada. O que existem são zonas de conforto onde nos cercamos daquilo que parece certo até aquele momento. Mas nada nem ninguém é definitivo. Tudo muda a todo instante, e por isso torna-se fundamental resguardar-se com leveza, dando real valor ao momento presente.

 Nem tudo é caos; reviravoltas fazem parte do plano para nosso crescimento. Nem tudo é difícil; as mudanças podem ser encaradas como desafios. Nem tudo é tormenta; alguns sustos nos levam para um lugar melhor.

 O que é certo é o presente. Só neste lugar e neste momento somos quem somos de fato, e temos o que temos ao nosso alcance. O resto, são só suposições. Se aquele caso antigo vai voltar ou não, se o curso de verão será bom ou não, se o amor presente vai durar ou não... não há certeza que possa perpetuar o que desejamos, pois a vida, por si só, é uma aventura em constante mutação, e carrega muito mais reticências que pontos finais; muito mais linhas a escrever que folhas gastas pelo tempo; muito mais viradas de página que finalizações de capítulos...

                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Tumblr





  

Um norte


 No último fim de semana assisti ao filme "Um senhor estagiário" ("The intern") com a turma lá de casa. Logo no início, Ben, o personagem vivido por Robert de Niro, diz:
"Freud disse: "Amar e trabalhar, trabalhar e amar. É só o que existe". Bem, eu sou aposentado e minha esposa morreu. Como devem imaginar, tenho tempo de sobra. Minha esposa faleceu há três anos e meio. Sinto muita falta dela. E a aposentadoria é um esforço contínuo e implacável de criatividade..."

 O resto não vou contar, só digo que o filme é bem divertido e me fez pensar na vida como uma sequência de eventos que devemos usufruir da melhor forma possível. Como disse Ben, "um esforço contínuo e implacável de criatividade." Pois, ao contrário do que cantou Zeca Pagodinho, nem sempre é válido "deixar a vida me levar". Há que se ter criatividade e jogo de cintura pra não esmorecer nos momentos em que nos falta um rumo a seguir.

 Como você passa o seu dia? Trabalha, leva os filhos para a escola? Estuda de dia, namora de noite? Cuida dos netos, cultiva um jardim? Faz ginástica, encontra os amigos? Estuda, trabalha, pratica yôga e cozinha? Tem tempo demais, tem tempo de menos? De qualquer forma, estabelecer um norte torna-se primordial para se viver bem. Ter objetivos, ter pra onde ir, ter o que fazer, descobrir o que te faz feliz, descobrir o que te realiza e completa... tudo isso faz parte do pacote que é brincar de viver, e deve ser cultivado constantemente.

 Ter um norte é descobrir as coisas que alimentam sua alma, os gostos que renovam seu espírito, as atividades que lhe dão prazer, as músicas que lhe comovem mais. Não necessita de especialização nem perfeição, só vontade de estar inteiro naquilo que lhe completa. Não precisa de carteira assinada, muito menos livro ponto. Ter um norte tem mais a ver com os assuntos do coração do que da obrigação, e depende mais da vontade que da necessidade.

 Essa reflexão me trouxe de volta uma sessão de terapia em que minha terapeuta me perguntou o que eu mais gostava de fazer. Eu respondi que era cuidar do meu filho. Ela insistiu, tinha que ser algo direcionado a mim, não a outra pessoa ("os filhos crescem..." _ ela disse). Foi então que me lembrei que gostava de escrever e, bingo! descobri que podia começar um blog.

 Então o que eu quero dizer é que você tem que descobrir o que te realiza e faz você querer abrir os olhos pela manhã todos os dias. O que faz você sorrir para o espelho do banheiro mesmo que a saudade esteja doendo em seu peito. O que lhe comove ao ponto de lhe tornar criativo para resistir e querer ser melhor do que já foi. O que alimenta seu espírito quando o cansaço lhe tira as forças, e faz seus olhos brilharem à primeira lembrança do que você pode fazer com seus dons.

 Ter um norte é descobrir em si mesmo o que lhe completa, e não buscar nos outros o seu sentido para viver. É encontrar dons escondidos e alimentá-los com vontade e determinação. É esforçar-se para sair da acomodação e seguir por uma estrada íngreme, que leva a um lugar melhor. É ir à luta para encontrar sentido nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, nas diminutas possibilidades.

 Ben, o personagem que citei, é um senhor empenhado. Aos setenta anos, já tentou de tudo: viajou, jogou golfe, leu, foi ao cinema, fez yôga, aprendeu a cozinhar, comprou plantas, estudou Mandarim. Ainda assim, precisava de um sentido maior para seus dias. Se ele encontrou? A gente torce que sim!

 Quanto a nós, só podemos seguir feito Ben, em busca de sentido. De algo que venha sanar esse vazio existencial que todos possuímos, e que de vez em quando dá as caras de um jeito maior do que gostaríamos. Que haja serenidade para esperarmos o tempo das descobertas. Que haja lucidez para assumirmos o papel que nos cabe em nossa própria vida. E que não nos falte ânimo, pois é ele que nos impulsiona a viver melhor todos os dias.

                                                                                             FABÍOLA SIMÕES
   









  

  


  





You've Lost That Loving Feeling‏

Mais um texto do meu amigo e colaborador Djalma Alt Faria Neto:


"Eu consigo viver muito bem sem você
Claro que consigoExceto quando chuvas suaves caem das folhas, aí eu me lembroDa felicidade de ser abrigado em seu abraço Com certeza eu me lembro,Mas eu sigo muito bem sem você.
Eu me esqueci de você, assim como deveriaÉ claro que me esqueciExceto quando escuto seu nomeOu a risada de alguém que é igual a suaMas eu me esqueci de você assim como eu deveria..."
 Essa música (I Get Along Without You Very Well) cantada por Frank Sinatra, Nina Simone e Renato Russo, traduz muito bem esse sentimento que nos faz lembrar de alguém. Nela, o cara insiste em dizer que se esqueceu daquela pessoa, que consegue levar sua vida na boa e só se lembra dela em alguns momentos: quando acorda, quando dorme, quando escova os dentes, quando chove, deita, tira uma soneca, vê alguém parecido, assiste um filme, visita um determinado lugar, corre na rua, passeia de bicicleta, enfim...
 É claro, você já deve ter ouvido falar que não existe em todas as línguas, nenhuma palavra que explique o real significado da palavra portuguesa SAUDADE.
 Na verdade, saudade pode ser explicada como um sentimento difícil de definir, mas fácil de entender.
Ela pode estar escancarada em qualquer pessoa _ estampada naquele sorriso ou escondida por trás de tanta tristeza.

 Ter saudade é como participar de uma realidade invisível: você tem as possibilidades de usar tudo a seu favor, de levar adiante sua vida sem pestanejar em qualquer momento _ mas quando se lembra daquele lugar legal que nunca mais voltou, ou daquela pessoa que está tão longe, você pára nem que seja por um segundo para dar aquele suspiro...

 Saudade sente quem tem fome, tristeza, amor ou insônia. Quem tem boas histórias pra contar _ quem já sorriu muito, correu muito, se divertiu muito, sofreu muito ou amou muito!  Saudade sente quem um dia parou e percebeu que ficar olhando pra trás não é o melhor negócio e então repetiu baixinho: Eu me quero de volta! 
 Porque saudade também é você saber cuidar de si mesmo, vibrando uma energia diferente para atrair coisas boas, olhando sempre pra dentro e vivenciando tudo com um novo olhar. Saudade é, muitas vezes, querer e ter a possibilidade de ficar sozinho.

 Tem saudade quem já usou Kichute, Maria Chiquinha, tomou Fanta Uva, assistiu desenho animado, andou de patins, comeu chocolates Surpresa, bala de leite Kids, lanches Mirabel, cigarrinhos de chocolate Pan, chupou pirulito Dipn Lik, comprou um suspiro só pra ganhar um relógio de brinde ou fez castelos de areia quando foi passear com a família na praia.

 Tem saudade quem sabe que as melhores coisas da vida são as mais simples e então encheu seu pendrive de músicas legais para ouvir no carro, usou aquele monte de moedas pra tomar um espresso na padoca da esquina, parou na estrada para fotografar aquele pôr-do-sol alaranjado que cegava sua visão no caminho de volta pra casa, encarou o dia com sorriso enorme no rosto mesmo sabendo que o horóscopo daquela manhã dizia que  a Lua transitaria pela Casa 5, enquanto o Sol se encontraria na Casa 12, - o que não seria bom porque sua sensibilidade estaria muito aflorada, o que poderia provocar reações exacerbadas sem nenhum embasamento racional.

 Tem saudade quem se lembra de alguém na melhor parte da música, naquele pedaço que você gosta mais. Então você sorri enquanto canta junto “estranho seria se eu não me apaixonasse por você”. Porque músicas sempre lembram momentos, que te levam pra algum lugar, que te dão saudade.

 Tem saudade quem já se olhou no espelho e não ficou contente com o que viu  e então traçou planos de cortar o cabelo, ir ao dermatologista, frequentar a academia, comprar uma calça nova, experimentar o novo perfume que viu na revista.
 Mas é também ter o direito e a possibilidade de se entristecer quando alguma coisa passa a incomodar, quando parece que o mundo joga contra, quando você fica sem lugar, quando o jogo parece estar totalmente perdido. Saudade de um carinho, de um sorriso compreensível, de um olhar de cumplicidade, de ficar preso para sempre naquele abraço que era tão bom! 

 Tem saudade quem ouve a pessoa falar que vai te amar pra sempre mas mesmo assim quer ir embora da sua vida _ e você então percebe que, por mais que ela insista em te provar que você é super importante, aquele amor se transformou em carinho. E ainda que você não queira essa situação porque ainda ama e ficar sem ela pode parecer desesperador em um primeiro momento, você fica tranquilo porque sabe que fez tudo o que podia, que colocou todas as suas cartas na mesa, que de repente, as coisas realmente não precisam ter sentido algum - pelo menos uma vez na vida. 

 Tem saudade quem retornou àquele lugar que foi palco de encontro de uma época bem feliz mas que, por algum motivo, passou. Você olha para a mesa ali no canto e se vê, alguns anos mais novo, esperando pela companhia que estava por vir, enquanto a história toda passava pela sua cabeça: o primeiro encontro (aquele), o olhar fixo na tela do celular esperando pela mensagem de "Estou chegando Rosto mandando beijoRosto sorridente com olhos em forma de coração", o primeiro café, o barzinho que veio logo a seguir, as viagens com fotos na praia, na rua, na chuva ou na fazenda! E tudo se desenvolveu assim: como  as músicas menos conhecidas de um disco que bombou, os famosos Lados B, aquelas canções poucos conhecidas mas não menos importantes, exatamente as suas preferidas.

 Olha, saudade traduz você, seus gestos, sua maneira de falar, andar e sorrir! 
 Saudade traduz você que está tão longe e ao mesmo tempo tão perto. E bate tão forte como naquele refrão, dessa vez de outra música: “E eu nem sabia, como era feliz de ter você"

                                                                                           DJALMA ALT FARIA NETO

Nossa grandeza e nossa pequeneza


 Nesse período de férias escolares contei com a ajuda de minha mãe. À tarde ela ia para minha casa e lá ficava com meu filho e meu sobrinho, netos que ela sempre quer por perto. Outro dia, voltando do trabalho e encontrando-a em casa, tive vontade de deitar no seu colo e voltar a ser a filha que um dia eu fui. Mas o que eu era? Era a mãe de um menino de nove anos chegando em casa. Era a dentista do Centro de Saúde terminando o expediente. Era a esposa retornando para o lar. Era a filha encontrando sua mãe. Esqueci esse último papel e assumi os outros três. Comovida com minha necessidade de proteção, apenas endureci. E lembrei de uma frase numa palestra da Rosely Sayão na escola do meu filho: "Onde tem afeto, é mais difícil". E percebi o quanto a comunicação falha quando há afeto envolvido.

 Queremos colo, mas dizemos que estamos cansados. Desejamos ser ouvidos, mas falamos com aspereza. Temos medo, e em vez de buscar um refúgio, nos irritamos com facilidade. Estamos sensíveis, por isso endurecemos.

 Somos grandes e pequenos ao mesmo tempo, mas só mostramos uma face, nem sempre a melhor. Manter certa distância de nossos sentimentos facilita o diálogo, mas não traduz quem somos de verdade.

 De verdade somos seres complexos, antagônicos, que se alegram com facilidade e perdem o humor no instante seguinte. Tem dias em que tudo se encaixa, como peças de um quebra cabeças perfeito, e outros em que nos perguntamos pra onde estamos indo realmente. Talvez aprender a lidar com a transparência de nossos sentimentos, sendo sinceros no diálogo com quem nos importamos de verdade, seja a chave para nos comunicarmos melhor.

 Nossa grandeza diz que somos dignos de amar e sermos amados, que estamos no rumo certo, que podemos desejar um monte de coisas, que tudo é possível para quem tem fé, que um dia ruim é passageiro, que a vida é muito boa, que é bom ter a casa cheia, que nunca é tarde para investir num sonho, que somos seres que necessitam de amigos. Nossa pequeneza nos coloca em dúvida em relação ao presente e futuro, nos amedronta diante da novidade, nos afasta das pessoas, diminui nosso amor próprio, afugenta a proximidade dos outros.

 Mas ninguém é uma coisa ou outra. Tanto a grandeza quanto a pequeneza têm espaço dentro de nós, e vêm à tona sem que nos programemos para isso. Então o negócio é nos conhecermos melhor _ e aprendermos com os erros. Quem sabe assim a gente se habitue a buscar a realidade recheada de verdade, e descubra que um cansaço é só um cansaço, e não precisa ser mascarado com frieza e distanciamento. Que a vontade de ganhar um abraço muitas vezes tem que ser dita, e que isso não diminui a validade do gesto. Que querer um colo de vez em quando é normal, e nos aproxima um tanto também. Que a tristeza existe, e acusa um monte de verdades que precisamos parar para ouvir. Que depois de senti-la por inteiro, ela vai embora.

 E que só quem não tem medo de ficar triste consegue ser feliz por inteiro.

                                                                                                 FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Via Tumblr







 

  

Menos um dia


 Ao cobrir meu filho durante a noite penso no quanto ele está crescendo depressa, em como se modifica rapidamente com o tempo, nos vapores de infância que ainda são possíveis de respirar em nossa casa.

 Cada dia é um dia a menos. Por isso, embora haja compromissos _ a vida pede desempenho, obrigações, metas, horários e comprometimento _ é preciso olhar para a existência com olhos de novidade, que não se habituaram com a claridade da rotina, mas se esforçam para usufruir o tempo com qualidade. Mais ou menos como quando viajamos.

 Viajar é tão bom porque nos impulsiona a sair de nosso cotidiano repetitivo e a experimentar uma existência nova, totalmente diferente de nossos dias corridos. Em um lugar que nos pertence apenas temporariamente, nosso olhar muda. Foi assim que me senti nas últimas férias, e é para esse tempo que volto quando as obrigações da rotina pesam sobre meus ombros. Fecho os olhos tentando me lembrar do cheiro da pipoca caramelizada dos parques da Disney, e me vejo andando pela rua principal do Magic Kingdom de mãos dadas com meu marido. Ouço a voz do meu filho comemorando a façanha de ir em mais uma montanha russa e sorrio enquanto caminho apressada. E por mais que se diga que quando estamos vivendo uma realidade com a cabeça em outro lugar não estamos em lugar nenhum, preciso dessa lembrança para me sentir em paz. Eu sei que pode parecer pouco, pode parecer pequeno, mas me apazigua também.

 Encontrar conforto na rotina que nos acorda ao som de despertadores não é tão simples quanto parece. Mas podemos treinar nosso olhar. O mesmo olhar que se transforma ao arrumar as malas para partir pode se encantar com o cheiro do filho dormindo, com a repetição dos episódios de Star Wars que me ensinam a entender o contexto do último filme, com o sabor de café recém passado do Centro de Saúde, com o trabalho bem realizado nos cinco dias da semana, com o fim de semana que passa tão depressa, com o vinho no jantar com meu marido, com o calor das mãos de minha mãe no fim da tarde, com o livro "A redoma de vidro" que estou lendo, com a noite que chega rápido demais.

 Sofremos com o fim do domingo porque imaginamos a semana como uma tarefa árdua demais para se enfrentar. Não precisava ser assim. Nem todo dia de trabalho é um dia perdido ou ruim. Na verdade devíamos lembrar que é um dia a menos como todos os outros, e por isso devia ser vivido com maestria, por mais difícil que pareça.

 Tenho orado em silêncio enquanto caminho pela rampa que termina na porta do consultório onde atendo. Não foi fácil voltar das férias para o Centro de Saúde, mas tenho pensado em alternativas que me permitam usufruir o dia ao invés de apenas enfrentá-lo. Aos poucos tem dado certo. Por mais desgastantes que sejam nossas funções, elas são nossas escolhas, e é preciso estarmos gratos por fazerem parte de nossos dias.

 Que a gente assuma a vida que escolheu do jeitinho que ela é, e não perca tempo lamentando a porção difícil que qualquer dia carrega. Que nosso olhar possa se renovar diariamente, mesmo que a rotina seja repetida exaustivamente. Que a gente descubra maneiras de se surpreender, nem que seja variando o trajeto para o trabalho, mudando a forma de começar as refeições, alterando o lado para o qual repartimos o cabelo, seguindo novos roteiros de viagens no Instagram. E que não nos falte ânimo para realizar todas essas coisas, pois cada dia é menos um dia, e o melhor que podemos fazer é vivê-lo com sabedoria.

                                                                                       FABÍOLA SIMÕES

Mais uma chance



 Outro dia revi "Comer, rezar, amar" num desses canais da TV paga. Elizabeth Gilbert sempre me surpreende com algumas de suas frases, e dessa vez não foi diferente. Num dado momento, o amigo da personagem principal diz: "Você precisa aprender a escolher seus pensamentos do mesmo jeito que escolhe as roupas que vai usar a cada dia. Se você quisesse tanto assim controlar as coisas da sua vida, trabalhe com a sua mente. Ela é a única coisa que você deveria estar tentando controlar. Reconhecer a existência dos pensamentos negativos, entender de onde vieram e porque apareceram e então _ com grande capacidade de perdoar e com grande coragem _ mandá-los embora."

 A frase coube direitinho neste começo de ano em que decidi reciclar meu interior e voltar para a terapia. Estou me dando de presente a oportunidade de entender meus pensamentos, saber de onde vêm e conseguir fazer deles algo melhor e mais bonito. 

 A gente reluta muito em entender que somos o início e o fim da maioria de nossos problemas. E é engano acreditar que podemos controlar o tempo, as pessoas que nos rodeiam e as circunstâncias que nos cercam sem modificar a forma como olhamos para o tempo, para as pessoas e para as circunstâncias. A mudança está no pensamento, na escolha daquilo que permitimos que permaneça dentro de nós.

 Acolher o ano novo é reconhecer que nos foi dada mais uma chance. Mais uma chance de tentarmos ser melhores mesmo que isso nos custe muito esforço. Mais uma chance de querermos muito alguma coisa ao ponto de não desistirmos dela ao primeiro obstáculo. Mais uma chance de agradecermos em vez de reclamarmos, e simplesmente aceitarmos a vida como um presente, e não como um fardo. Mais uma chance de reconhecermos que temos sorte, por pior que pareçam os momentos.

 Escolher os próprios pensamentos pode parecer simples, mas não é. A mente se habitua a exigir em vez de agradecer. E teima em navegar por águas turvas, de descontentamento e desilusão. Por isso necessita de esforço. Tentar de novo, todos os dias, é um exercício que deve ser repetido exaustivamente, até chegar ao ponto em que o hábito vira rotina, e a repetição se torna vocação. Ninguém disse que seria fácil, mas pode ser possível se você tentar.

 A realidade depende da forma como interagimos com ela. E agora me veio à mente uma história (real) que meu marido conta. Na época em que morava no sítio e estudava na cidade, um de seus colegas de classe se esforçava para repetir de ano. Parece que repetiu inúmeras vezes porque não queria deixar o colégio, já que isso representava voltar a trabalhar na roça. O que para alguns poderia parecer um fardo (repetir de ano), para ele era uma bênção. Assim são nossos pensamentos. Podem nos conduzir para uma existência leve, sem dívidas, ou podem fazer da realidade uma extenuante repetição de fardos pesados, difíceis de carregar.

 Que 2016 traga mais uma chance e com ela o amadurecimento de nossa capacidade de escolher bem os pensamentos, dando real importância ao que deve criar raízes em nós. Que possamos reconhecer mais uma chance nos dias que ainda não foram escritos, e que aprendamos a colorir nossas folhas em branco da melhor maneira que pudermos. Que haja esperança, porque ela é o combustível para os momentos difíceis. Que haja fé, pois ela nos permite resistir quando falta acolhida em nossa vida. Que não nos falte afeto nem boa companhia, mas que saibamos tolerar nossa solidão com sabedoria. Acima de tudo, que a gente não desista, pois a vida é para quem ousa insistir, mesmo quando a dúvida parece resistir...

 Bem vindo 2016!