De onde vem a calma

 Minhas férias vem chegando e ando um turbilhão por dentro. Não pela proximidade de meus dias de paz, mas pelo acúmulo de obrigações e malabarismos que junho trouxe.

 É meu filho quem me lembra que preciso me acalmar. Com suas mãozinhas subindo e descendo à frente do corpo, repete seu mantra num sussurro: "Acaaalma... acaaalma..." e paro o que estou fazendo num impulso rápido, para prestar atenção à minha respiração e finalmente me acalmar _ inspirando e falando devagar; expirando e dizendo as palavras um tom mais baixo; inspirando e agindo como uma criatura normal.

 É comum sentir-me culpada depois de agir apressadamente, prestando atenção a tudo e nada ao mesmo tempo. A sensação que vem depois é a de vazio e arrependimento. "A vida é tão curta... logo ele cresce e esses momentos serão só lembranças..." ou sua variante: "a vida passa tão depressa... aproveita enquanto tem saúde..."; ou indo mais além: "a vida é tão breve, seus pais não são eternos..." 

 O fato é que preciso de calma. Preciso desta mercadoria rara que não se vende em farmácias nem está disponível em qualquer site descolado. Mais do que o precioso tempo, preciso reaprender a me acalmar.

 A gente usa muito pano pra pouca manga, como diz o ditado. Faz tempestade num copo d' água pra chover no molhado e depois descobrir que entrou pelo cano por ser tão fogo de palha.

 Brincadeiras à parte, a verdade é que dramatizamos demais. Passamos muito tempo desperdiçando energia e esquecemos que calma rima com Alma. Combina com esquecimento, reabastecimento, afrouxamento, alheamento.

 Faz bem pra alma. Estar alheio ao buzinaço que acontece dentro ou fora de nós, nadando contra a correnteza de toda tralha sem utilidade que amontoamos sem mesmo saber porque. Esquecemos que a alma também precisa de calma. Pausa e reflexão. Serenidade e faxina.

 Fazer faxina na alma vai além de limpar territórios escondidos ou organizar emoções em prateleiras cobertas com papel contact. É amarrar um laço de seda na construção de nossa paz e descartar tanta preocupação irrelevante, irreal ou carregada de culpa inútil que costumamos remoer naquelas horas em que não podemos mais adiar o encontro com nós mesmos.

 Nas horas mais silenciosas, em que as luzes se apagam e não há barulho na casa, a goteira da perturbação encontra uma fresta no assoalho de meus pensamentos. E por mais que deseje um tanto de calmaria, ela pinga culpa e desassossego. Tenho tentado virar o jogo. Não pode haver condenações ao assumirmos nossa espontaneidade ou agirmos com autenticidade.

 A armadilha da perfeição nos alcança e tira a paz. Querendo dar conta de tudo sem sair da linha nos empurramos barranco abaixo, passando a carroça na frente dos bois.
 É preciso tempo para construir uma existência de paz. Sem conflitos entre o Dever e o Poder; sem desavenças entre o Desejar e o Conseguir; sem brigas entre o Quero e o Posso alcançar.

 Devagar e em frente, respirando e esvaziando, aceitando e permitindo, dando real valor a cada coisa no seu lugar. Percebendo, acima de tudo, que a maturidade tem o dom de trazer calmaria, e a tranquilidade vem do respeito por nossa natureza, deixando de tentar ser Super-Pessoas, e aceitando nossos limites, nosso tempo, nossa paz.

 Que o período de férias seja um tempo bom para acolhermos quem nos tornamos de fato _ a pessoa por trás do avental branco ou uniforme de trabalho; o alguém que não tem que bater o ponto nem provar seu talento a todo momento; a pessoa que carregamos por baixo da superfície, e que precisa ser cuidada e valorizada de tempos em tempos.

 Que eu não precise de meu filho repetindo a todo momento que preciso me acalmar. Que seu mantra não seja o alerta máximo para que eu preste atenção à melhor fase da minha vida.
 Para que o tempo não passe sem que eu me dê conta.

 Para que a gente descubra "de onde vem a calma" e ao contrário do que diz a música, 'aprenda a ser melhor, viu?' 

                                                                                                                FABÍOLA SIMÕES

*Imagem: Magdalena Berny

     
                                                               




                                                        






A Alegria e a Tristeza em DivertidaMente

 Na época em que eu fazia terapia, um dos grandes trunfos de minha terapeuta foi me ensinar a nomear os sentimentos. Ao contrário do que havia aprendido em minha criação católica, descobri que era possível _ e saudável _ sentir raiva, tristeza e medo. Esses sentimentos eram tão importantes e legítimos quanto à alegria, doçura e encantamento perante a vida.

 Sábado percebi, ao lado do marido e do menino de nove anos que aos poucos deixa suas ilhas da infância para trás, que minha terapeuta tinha razão.

 No cinema, assistindo à mais nova animação da Disney Pixar _ Divertida Mente _ recordamos o quanto crescer pode ser doloroso, ainda que seja

Tempo de vagarezas

 No shopping, uma daquelas campanhas pelo Dia dos Namorados trocava cupons fiscais por bônus que davam direito de concorrer ao sorteio de quatro carros.

 Os dias correram e já não me lembrava mais do assunto quando sou abordada por meu menino, anunciando eufórico a chegada do dia 15 de junho. Perguntei o que ele queria dizer com isso e, do alto de seus nove anos, me lembrou o dia do sorteio.

 Sorri sem jeito, enquanto seus olhinhos, carregados de expectativa infantil, traziam o brilho da esperança por um momento especial, um 'divisor de águas em sua infância'.

 Já se passaram três dias, e ficou claro que não ganhamos o carro. Mas me flagrei pensando nas pequenas alegrias que assolam nossos dias, fragmentos de uma felicidade que se intercalam com dificuldades e desafios cotidianos.

 Se ganhássemos o sorteio, é claro que viriam sorrisos, abraços vitoriosos e uma série de anedotas que construiríamos a partir disso_ "estava escrito...; lembra do jovem que trocou a sua senha com a gente?; era pra ser..." É claro que a alegria seria real e intensa. Porém,

Nem uma música

 Tentei pensar numa única música que me lembrasse você, mas descobri que a trilha sonora de nossa vida é vasta demais _ das melodias do Palavra Cantada para crianças às batidas de David Guetta pra fase de corridas; da trilha de Saltimbancos a Coldplay, da canção de abertura de Pokémon ao pop rock dos anos 90.

 Também não temos um único longa, como os casais costumam ter. Gostaria de dizer que adoramos clássicos em preto e branco, ou que "Birdman" não sai do nosso DVD; mas a verdade é que nossas sessões de cinema ficaram reduzidas às animações da Disney Pixar, e a tevê lá de casa tem predileção por seriados com gente perdida em uma ilha. Gostamos de "O segredo de seus olhos" e nos divertimos com "Lisbela e o Prisioneiro", mas o que seria de nós sem os travesseiros que compartilhamos no tapete da sala ou das pipocas que se perderam nos vãos do sofá?  

 O amor é isso: um amontoado de afinidades que

Farinhas do mesmo saco

 Outro dia, um amigo de longa data se referiu a mim e a uma amiga em comum como "farinhas do mesmo saco". E ri da expressão, orgulhosa de ser o mesmo tipo de pessoa que minha amiga.

 Dizem que os opostos se atraem. Talvez porque eu busque no outro o que me falta, ou aquilo que desejo revelar, mas só ele consegue exteriorizar.

 Porém, em se tratando de amizades, felicidade é ser farinha do mesmo saco, do tipo que engrossa o mesmo caldo ou dá consistência ao fermento que fomenta a vida.

 Quero ser farinha do mesmo saco de quem mora longe, mas se faz sempre perto, e não deixa a saudade distanciar. De quem cuida da amizade com vontade de estar presente, sem correr o risco de que o tempo apazigue a memória do que sempre queremos lembrar;

 Desejo ser farinha do mesmo saco de quem não tem medo de ser imperfeito, e trata com carinho seus deslizes, compreendendo que nossas incompletudes são partes do mesmo saco também;

 Sou farinha do mesmo saco de quem compartilhou um tempo bom, e fez da trilha sonora e cinematográfica de sua vida parte da minha também, eternizando "Grease", os clássicos de Woody Allen, "Moon River"Legião e "Go Back" _ na versão linda com Fito Paez;

 Sou farinha do mesmo saco de quem me viu modificar com a idade, e transformou-se comigo, superando as dificuldades do caminho e prosseguindo lado a lado, compreendendo que ainda que os roteiros sejam distintos, permanece aquela linha invisível ligando os mundos;


O Sal da Terra


Um pouco atrasada, assisti ao documentário "O Sal da Terra", dirigido pelo alemão Win Wenders, sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. No trailer, a frase_"Um fotógrafo é alguém que desenha com luz. Um homem que escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras"_ antecipa o que o documentário quer captar: a sensibilidade ímpar do fotógrafo, que enxerga e decifra o todo conforme sua visão e sentimento do mundo.

 Mais adiante ele diz: "Se você colocar vários fotógrafos num mesmo lugar, todos farão fotos muito diferentes, cada um desenvolve sua forma de ver de acordo com sua história".

 E concluímos, junto a Salgado e Wenders, que nossa bagagem é muito mais vasta que