Nos últimos anos, um movimento crescente tem ganhado força entre casais que buscam melhorar a qualidade de vida e de sono: o “divórcio do sono”. A prática, que consiste em dormir em camas ou quartos separados, é defendida por especialistas e adotada por casais famosos, como a atriz Sheron Menezzes e o lutador Saulo Bernard, bem como os atores Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça.
Naira Moraes, gestora de redes sociais de 57 anos, e Renato dos Santos Junior, ilustrador e designer de 59 anos, estão juntos desde 1988 e adotaram esse estilo de vida. “Nunca entendi quem dorme junto. Cada pessoa tem sua rotina, particularidades e manias. Não acho romântico e muito menos saudável expor outra pessoa a isso”, afirma Naira em uma entrevista para O Globo. Ela acrescenta que manter a chama do início por quase 36 anos é uma batalha diária: “Se conseguimos, é porque nos amamos.” Renato complementa: “É questão de estratégia, porque casamento gera atritos. É preciso ter um espaço seu para poder se recuperar, reestabelecer-se.”
De acordo com a Academia Americana de Medicina do Sono, o “divórcio do sono” é uma prática reconhecida. Um estudo realizado no ano passado revelou que um terço das duas mil pessoas entrevistadas opta por dormir separadamente. O otorrinolaringologista George do Lago Pinheiro, da Associação Brasileira do Sono, destaca que “quando um dos parceiros ronca, se mexe muito ou sofre de sonambulismo, dividir a cama pode ser prejudicial. Quem não dorme direito tem dificuldade de concentração, irritabilidade, fadiga e queda no rendimento.”
A prática, longe de demonizar a ideia de dormir juntos, busca proporcionar um sono restaurador e relações mais flexíveis. A psicóloga Rosângela Casseano aponta que “dormir em camas separadas é uma maneira de priorizar a individualidade, reforçando laços de afeto. Tem quem acredite que dormir junto é um termômetro da felicidade do casal. Mas isso é parte da nossa cultura.”
Historicamente, dormir separado era comum antes do século XIX, como mostra o historiador americano A. Roger Ekirch no livro “At Day’s Close: Night in Times Past”. Com a ascensão da burguesia, ter quartos separados era sinônimo de ostentação e conforto, especialmente entre a realeza. Dividir a mesma cama é um conceito moderno, nascido com a Revolução Industrial e associado ao romantismo.
Além de preservar o próprio espaço, casais com cronotipos muito diferentes também podem encontrar mais harmonia dormindo sozinhos. O cronobiologista Mario Leocadio Miguel alerta que “luz, celular, televisão, ruídos e movimentos são variáveis que potencialmente atrapalham o sono e devem fazer parte das discussões sobre a qualidade de vida do casal.”
Eva Monteiro, gerente de licitações de 43 anos, e sua esposa, Thaise França, militar de 39 anos, exemplificam essa prática. Casadas há um ano, elas atribuem a rotina de dormir separadas às diferenças de comportamento. “Ela dorme e levanta cedo, e eu sou o oposto, fico na TV e no celular. Tem também a questão do ventilador no quarto: Thaise gosta e eu não”, conta Eva. Para casais interessados em adotar essa prática, Thaise aconselha: “Converse e mostre que pode ser bom para ambos. O que vale é a tentativa. O mais importante é ter uma rotina de qualidade.”
Em suma, o “divórcio do sono” não significa falta de amor ou intimidade, mas sim uma adaptação às necessidades individuais, promovendo uma vida conjugal mais saudável e harmoniosa.
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