Coloquei meu coração em stand by. Desisto de tomar decisões emocionais, sangrar frente à primeira decepção, ficar à flor da pele por motivos banais. Vou parar de expor minhas feridas, fazer palco das minhas angústias, confidenciar minhas fraquezas na fila do pão. Desejo que os sentimentos confusos deem lugar a decisões inteligentes, e que a bateria do meu coração funcione em modo de economia de energia para que eu possa enxergar com clareza e compreensão.

Coloquei meu coração em modo de economia de energia. Desejo que ele tire férias merecidas, longe do binóculo alheio e confortável em seu ócio incomum. Que abdique de seu governo por algum tempo, e siga batendo num ritmo constante, sem oscilações impactantes por motivos sentimentais.

Segundo o dicionário Oxford Languages, “stand by” significa: “que ou aquele que não tem reserva confirmada num avião de linha e só é admitido caso haja lugar sobrando”. Assim, deixo meu coração na reserva, e peço que minha mente assuma o assento principal. Que haja trégua de minha reatividade, pacificação de minhas inseguranças, descanso de meus temores, sossego de minhas aflições, pausa de minha ansiedade.

O coração da gente também precisa de descanso, de funcionar à meia luz, com a bateria em modo de economia. O som de fora precisa ficar baixinho, e as persianas da alma devem criar um ambiente de aconchego e proteção. Coração é terra que não pode ser pisada de qualquer jeito, senão fica magoado. De vez em quando é preciso pausar o tempo, deixar a mente assumir o controle e fazer o coração repousar.

Coloquei meu coração em modo de economia de energia. Vou reduzir a atividade de minha ansiedade, suspender a ação de minha insegurança, interromper o ciclo vicioso de minha obsessão. Que meu coração filtre o que merece ser valorizado, e não se desagaste com o que não acrescenta nem agrega. Que seu brilho máximo seja usado para o prazer e a alegria, e que funcione à meia luz e em baixa velocidade para tudo que necessito me desapegar e deixar ir.

Às vezes é preciso deixar o coração repousar e esfriar. Não para fugir, mas para permitir que a mente glacial assuma as rédeas. É preciso deitar a reatividade no travesseiro, oferecer lençóis limpos e cheirosos para a impulsividade, colocar as emoções em banho maria e desligar a chave da precipitação. Não tomar decisões emocionais, baixar a poeira da ansiedade e raciocinar sem perder o ar, buscando respostas longe do burburinho sentimental. Às vezes o sangue ferve tanto que chega a fritar os miolos do raciocínio. Ficamos cegos, e só o tempo é capaz de restaurar a paz.

O coração só deve ficar aquecido de alegria e afeto. Um coração em chamas, porém, pode danificar a si mesmo profundamente, além de destruir relacionamentos e pessoas. O coração da gente também precisa ser poupado e resfriado. Necessita de pausas, de quietude e desaceleração.

Coloquei meu coração em modo de economia de energia para que ele não sangrasse frente à primeira frustração; ou não caísse de cama, doente, quando meu time não fosse campeão. Depois de aprender as regras do jogo, desejo fazer parte da festa, e dançar ao som de Gonzaguinha “sem vergonha de ser feliz”… Quero um coração-tamborim, cheio de ginga e jogo de cintura para que meu sorriso não seja facilmente roubado, e para que a vida seja contada de forma leve, ainda que sobrem perguntas sem nenhuma resposta – “a beleza de ser um eterno aprendiz…”  

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Fabíola Simões é dentista, mãe, influenciadora digital, youtuber e escritora – não necessariamente nessa ordem. Tem 4 livros publicados; um canal no Youtube onde dá dicas de filmes, séries e livros; e esse site, onde, juntamente com outros colunistas, publica textos semanalmente. Casada e mãe de um adolescente, trabalha há mais de 20 anos como Endodontista num Centro de Saúde em Campinas e, nas horas vagas, gosta de maratonar séries (Sex and the City, Gilmore Girls e The Office estão entre suas preferidas); beber vinho tinto; ler um bom livro e estar entre as pessoas que ama.

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