Perguntam se já tem namorado, se vai ficar noiva, se marcou casamento. Indagam se terá filhos, quando pretende tê-los, se vai parar de trabalhar para cria-los. Querem saber se vai ficar em um filho só, se vai suspender o uso da pílula, se os filhos não vão afetar a carreira. Perguntam se pretende acompanhar o marido na transferência de país, se não é arriscado ficar no Sul enquanto ele está no Nordeste, se vai abdicar da própria profissão para ser uma sombra dele. Palpitam sobre o relógio biológico, a entrega de currículos, a decisão de congelar óvulos. Lamentam a pouca sorte no amor, cobram a excelência em todas as áreas, julgam as tomadas de decisões. Mulheres estão exaustas de agradar, de parecerem perfeitas, de serem cuidadosas para não decepcionar, de cumprirem a lista de metas que se espera delas.

Essa semana assisti ao ótimo “Uma garota de muita sorte” na Netflix. O longa é baseado no livro de Jessica Knoll e acompanha Ani FaNelli, uma mulher bem-sucedida, autoconfiante, ocupando um cargo importante numa revista e prestes a ter o casamento dos sonhos. Em suma: Uma garota de muita sorte, experienciando a vida perfeita. Porém, logo no início percebemos que Ani (interpretada por Mila Kunis) não está vivendo, e sim representando um papel. Ela atua como uma boneca de cordas, falando e agindo de acordo com o que esperam dela, dando “checks” na enorme lista de requisitos necessários para ser uma garota exemplar.

Ani é o estereótipo da mulher perfeita: fala bem, come bem, se veste bem, tem um ótimo emprego e o relacionamento dos sonhos. Porém, é uma farsa. E, quando antigos fantasmas vêm à tona, ela tem que encarar a própria história e a própria dor. Assim, é obrigada a confrontar a vida que escolheu para si: uma vida de aparências, milimetricamente articulada para encobrir seu passado e dar novo sentido aos seus dias. Ao contrário do que pode parecer, não desmereço o esforço da protagonista e sim me solidarizo a ela e me enxergo em algumas de suas ações – defesas de uma menina que, para não sucumbir ao sofrimento, sorriu forçosamente para a existência.

O longa traz uma história de carga emocional forte, e acredito que – em diferentes níveis – muitas mulheres já passaram por algo semelhante. Porém, independente do enredo de cada uma, acredito que é quase unânime a sensação de que há uma lista de metas a cumprir, um prazo para que essa pauta seja concluída e um sentimento de dever perante esse objetivo, cujo descumprimento poderia aterrorizar como um atestado de pessoa malsucedida e infeliz.

Porém, nenhuma mulher será infeliz se não seguir “a lista de objetivos a cumprir antes dos 30, 45 ou 60 anos”. Nenhuma mulher será malsucedida se quiser escrever a própria história, no lugar e hora que ela bem entender. Nenhuma mulher deveria ser malvista por querer ir ao cinema sozinha. Nenhuma mulher deveria ser cobrada por não ter ficante nem namorado, como se isso fosse requisito para uma vida plena e feliz.

Muitas mulheres se desculpam por não terem um relacionamento com alguém, como se isso fosse um defeito, como se não fossem boas o bastante para serem “escolhidas”. Muitas mulheres se envergonham por não terem ficante, namorado ou marido, como se estar sozinha fosse uma falha delas. Muitas mulheres adiam o encontro com familiares e amigos, porque se sentem inferiorizadas perante eles, por estarem solteiras. Muitas mulheres aceitam um amor mais ou menos porque preferem ter alguém para apresentar nas festas de fim de ano ou para postar nos stories a não ter ninguém.

É notório que no meu meio, nas conversas entre amigas, haja a constatação de que muitas escolhas (pasmem, principalmente as amorosas) foram concretizadas devido à uma cobrança da sociedade, devido à necessidade de dar “baixa” naquele item da lista de conquistas que se espera de uma mulher antes dos 35 anos.

Ter companhia é bom; amar alguém e ser correspondido, melhor ainda. Encontrar alguém para dividir a vida, contar sobre seu dia e fazer planos é uma baita sorte. Porém, quando “ter um relacionamento” deixa de ser benção e passa a ser obrigação, o que era para ser um presente se transforma em fardo.

Não é pecado querer encontrar um amor e ser feliz. O perigo é usar isso para alimentar o ego. Amor, felicidade e ego não combinam. O amor é benção. Mas quando você busca-o por obrigação e se infla por possuí-lo, ele deixa de ser dádiva. Passa a ser instrumento de sua vaidade. Felicidade e ego não se misturam.

Você não precisa de um relacionamento para mostrar ao mundo que tem valor.  Relacionamentos são encontros, e devem ser leves, pacíficos, prazerosos e recíprocos. Quando o objetivo de ter alguém está alicerçado no ego e na vaidade, com o objetivo de provar algo à sociedade, superando até mesmo o afeto e respeito que você tem por si mesmo, está na hora de repensar sua ideia de amor…

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Fabíola Simões é dentista, mãe, influenciadora digital, youtuber e escritora – não necessariamente nessa ordem. Tem 4 livros publicados; um canal no Youtube onde dá dicas de filmes, séries e livros; e esse site, onde, juntamente com outros colunistas, publica textos semanalmente. Casada e mãe de um adolescente, trabalha há mais de 20 anos como Endodontista num Centro de Saúde em Campinas e, nas horas vagas, gosta de maratonar séries (Sex and the City, Gilmore Girls e The Office estão entre suas preferidas); beber vinho tinto; ler um bom livro e estar entre as pessoas que ama.

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