Parou na frente do espelho e os olhos de ressaca a encararam. Ficou um tempo ali, em transe, gostando do que via. No colegial apaixonou-se pela personagem de Machado; e, desde então, havia dias em que acordava assim, meio Capitu. O esmalte descascado nas unhas lhe conferiam um ar bohêmio e, apesar do banho e do demaquilante, as sobras do rímel à prova d’ água reafirmavam a mulher caótica que habitava seu ser, e da qual não queria livrar-se, mesmo que isso lhe causasse alguma dor.

Havia um quê de poesia e caos nas meia-calças de seda desfiadas, no batom vermelho que ficava marcado nas taças de cristal, nas tattoos espalhadas pelo corpo, na lembrança do vício em cigarros baratos.

Muito disso havia ficado para trás, mas quando acordava assim, meio Capitu, colocava um LP antigo no toca-discos vintage e, de olhos fechados, se arrumava para o trabalho ao som de “O mundo é um moinho”, do Cartola. Sambava de salto agulha na cara da dor, dava uma sacudida nos ombros afugentando a melancolia e não permitia que a tristeza lhe fizesse companhia.

Ela era misteriosa, e gostava disso. Ninguém sabia o que realmente pensava, e que ilusões não tinha conseguido abandonar – não porque fosse apegada, mas porque lhe conferiam um ar enigmático que ela não ousava contestar.

Muitas vezes não esperava o pôr do sol para servir-se de uma taça de vinho tinto. “Em algum lugar do planeta já passa das 18 horas”, costumava dizer, e isso bastava. O vinho era pretexto para o choro entalado na garganta vir à tona, e de novo Cartola a abraçava. Sambava ao som de “Disfarça e chora”, e deixava a voz do lamento explicar-lhe mais uma vez as regras do jogo – sim, o carrossel nunca para de girar…

No fundo, no fundo, ela gostava dessas coisas. De viver com o coração remendado, de sentir o salto agulha da aflição, de se jogar num mar turbulento de emoção. Quem disse que ser feliz era existir sem correr riscos, sem fúria, lamento, paixão e redenção?

Quem a via assim, tão livre, não imaginava a luta que tinha sido se libertar. Vivia na prisão do medo: medo de ser mal vista, mal falada, mal avaliada. Se desculpava por ser de verdade, se culpava por querer se ouvir e se respeitar. Desejava ser perfeita em todos os seus convívios, até descobrir que o melhor relacionamento que deveria ter era consigo mesma – a ligação que jamais iria a abandonar…

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Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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