Sempre gostei da noite. Do céu escuro, da lua introvertida e da harmonia que toma conta de mim quando as luzes se apagam e a quietude domina os cômodos do Ser. Deve ser por isso que não durmo bem. A noite me chama, me convoca a pensar, faz revelações surpreendentes e aguça minha intuição. A insônia é minha parceira constante, a vigília não me abandona.

Escrevo textos inteiros em minha mente, deitada na cama, olhando para o quarto escuro. Nem sempre sou brisa, às vezes me torno ventania.

Muitas vezes, desejando controlar a força dos vendavais, fui vulcão contido, grito abafado no travesseiro, batimentos descompassados no peito. Outras vezes, permitindo-me queimar, fui fúria na noite, magma abundante, rajada de vento cortante. Mas também soube ser brisa, acolher meu sono, repousar meus medos e abrigar meus vazios.

Aos poucos percebi que quanto mais eu desejava sufocar meus vendavais, tentando parecer brisa por fora quando era furacão por dentro, mais eles cresciam e ganhavam força dentro de mim, até o ponto de explodir. Porém, o que fazer com essa força estranha, tão poderosa, que eu tentava reprimir? Como canalizar esse vento súbito que nenhuma previsão meteorológica poderia extinguir?

Hoje sei que nem sempre sou brisa, e está tudo bem. Há dias de serenidade, e dias de inquietação. Dias de leveza e dias de ser vulcão em erupção. Tentar ser somente brisa, quando se tem um coração sensível, é permitir que raios e trovões irrompam no peito, causando dores dançarinas, que não sentem um pingo de culpa por sapatearem uma coreografia intensa no corpo inteiro.

Você pensa que está no controle de tudo, mas um dia você acorda brisa e, sem nenhum aviso, uma tempestade te invade. Assim como o tempo muda quando chega uma frente fria, nós também podemos mudar em questão de segundos. Somos contraditórios e cheios de contrastes, e está tudo bem.

Não tente transformar suas tempestades em outra coisa que não seja tão poderosa quanto um temporal, nem almeje sufocar seus vendavais para aparentar ser sempre um mar de tranquilidade. Alguém já conseguiu frear um trovão? Com que força se segura a fúria das marés? Permita-se transbordar. Permita-se chorar. Permita-se recomeçar.

Então, depois do naufrágio, não se esqueça do bilhete. Sim, o bilhete que você escreverá para si mesmo, para ler daqui a algum tempo, ou quando vier a próxima tempestade. A mensagem em que você dirá que, apesar de tudo, você sobreviveu. Você resistiu à pior tormenta porque não teve pressa de se curar e soube ser gentil com seus processos e limitações. Você venceu aos seus piores dias porque não forçou a barra do tempo, da recuperação, do desapego, da melhoria instantânea. Você chegou até aqui porque entendeu que não precisa forçar nada, o que é seu encontrará um caminho para chegar até você. E, se não deu para ser hoje, tudo bem…

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Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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