Ontem assisti ao filme “Querido Menino” (Beautiful Boy, disponível na Amazon Prime) e a atuação impecável de Timothée Chalamet e Steve Carell me arrebatou e comoveu às lágrimas. Num dado momento, Nic Sheff, o menino, diz: “Eu nunca me liguei. Até que um dia acordei num hospital e me perguntaram: “qual é o problema?” Respondi: “Sou alcoolatra e viciado em drogas.” E me responderam: “não, isso é como você lida com o problema”.

“Agora eu sei que preciso encontrar uma maneira de preencher esse enorme buraco dentro de mim””

A dor e o desamparo de Nic gritam durante todo o filme, e a vontade que temos é de resgatá-lo, assim como ficamos tentados a acolher David, o pai, cujo sofrimento parece não ter fim. A pergunta que fica é: “Como preencher esse enorme buraco que nos habita?” e, mais ainda, “como lidar com a dor, o vazio e o desamparo do outro?”

Muitas vezes, para fugir de nossos próprios abismos, vamos em busca da cura da ferida do outro, e muitas vezes nenhum de nossos esforços irá sanar essa chaga que sangra, dói, corrói e mata.

Quantas vezes não nos empenhamos em tirar alguém do poço em que se encontra, e nos desligamos de nossas próprias vidas, de nosso equilíbrio, sem perceber que a cura não está em nossas mãos?

Numa das cenas, David procura auxílio numa reunião para familiares de viciados, e lá estão estampados os três Cs: “Não causei isso. Não posso controlar isso. Não posso curar isso”

Talvez tenhamos que adotar essa regra para nossa própria vida e para nossos relacionamentos. Não está ao nosso alcance curar alguém. Quase nunca teremos o poder de tirar alguém do buraco. Nem sempre conseguiremos ajudar alguém a lidar com seus próprios fantasmas. Não está ao nosso alcance preencher esse enorme vazio que assola o peito de outra pessoa.

Muitas vezes, acabamos destruindo outras relações para que aquela dê certo. E aquela não dá. E você estraga as outras.

Podemos tentar ajudar, orar pela pessoa, mandar as melhores energias. Mas ela só vai sobreviver se ela se empenhar também. Ela só vai se curar se desejar a cura.

Amar muito alguém não é o suficiente. Nem todo amor do mundo é o bastante para ajudar a transpôr os Everests que cada um tem que atravessar por si só. E por mais tentador que seja abandonar nossas embarcações para socorrer outros barcos, é primordial se perguntar: esse náufrago quer ser salvo? Ou, mais ainda: Por que estou me abandonando para sentir a dor dessa pessoa, para carregar a cruz dela, para afundar junto com ela?

Dar a mão, socorrer alguém, ter empatia pela dor do outro… tudo isso é válido, mas antes precisamos não nos abandonar. Antes de cuidar de alguém, preciso cuidar de mim. Não é possível tirar alguém do buraco estando dentro dele também.

Cada pessoa está travando uma luta interna, íntima, consigo mesma todos os dias. Cada ser que cruza nosso caminho está lidando – da maneira que consegue – com seus vazios e fantasmas; travando um embate com seu passado; processando lutos e desistências; encarando sua solidão – pois no íntimo cada um de nós está sempre só – do jeito que pode; escolhendo o que fazer com o sentimento de incompletude; suportando os abismos e faltas.

Você pode querer adivinhar ou imaginar, mas o que cada pessoa é, de fato, só ela sabe. Cada pessoa carrega dentro de si mundos que jamais conheceremos, ou jardins que só ela poderá visitar. Cada pessoa abriga em seu íntimo faltas que só ela saberá como preencher, e lacunas que ninguém irá protege-la de sentir.

Encontrar sentido diante da fragilidade da vida, descobrir quem somos de fato e suportar os vazios e faltas que abrigamos é uma tarefa pessoal e intransferível. A jornada de cada pessoa tem lições específicas para sua evolução. Ninguém poderá atravessar as pontes que são suas, em seu lugar; do mesmo modo que ninguém tem as chaves para abrir recintos que são seus, e só cabe a você adentrar…

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Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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