Ontem eu chorei. Foi um choro profundo e doloroso. Sabe aquelas dores que precisam sair? Dores que escondemos, dores que negligenciamos, dores que disfarçamos. A motivação das minhas lágrimas foi uma cena na TV: uma família, com uma mãe grávida e seus outros quatro filhos pequenos, morando em uma “casa” sem paredes, ancorada sobre um rio.

A tristeza que senti vendo aquela família desamparada, fez verter a minha dor. A minha casa emocional também estava incompleta sobre águas incertas. E chorei. Chorei pela dor de ver uma doença de alto contágio paralisando as nossas vidas, a nossa economia e nos sobrecarregar de medos.

Eu ando cansada e triste, mas sinto que não tenho direito. Tenho saúde, um emprego, uma casa, família e comida na mesa. De fato, tudo o que é essencial e abençoado, eu tenho.

Ainda assim, um vazio imenso me dói. Dói o silêncio, as grades nas janelas e as ruas vazias. As notícias – que tenho evitado – me machucam. O nó na garganta que não desata, me engasga. Rasgam-me o peito as notícias fúnebres de pessoas que me pintam como números e, ainda mais, das pessoas que pelos caminhos da vida conheci e jamais serão estatísticas.

Aqui, sentada em minha mesa, diante de uma janela cuja vista se perde entre prédios e uma serra, a luz da sala me ofusca. Falta alegria e falta vontade. Mas, vejo um horizonte que de mim não desiste.

“Eu acho que estou feliz e triste, tudo que eu tenho cabe na minha mão” é o trecho de uma música da cantora mineira Ceumar. Meu sentimento é esse: em caixas separadas residem a minha dor e a minha gratidão. E, nestes terremotos emocionais que sacodem o meu coração, esses dois sentimentos se misturam. O vermelho da tristeza risca o azul da alegria (Ou será o inverso?). Eles que estão assim, em alguns momentos confundidos, em outras horas lado a lado, caminhando comigo como se fossem meus tutores.

Por desespero ou coragem, cismo que preciso organizar os meus armários. Jogo fora as inutilidades e passo um pano limpo, mas a sensação de bagunça não passa. Dentro de nós, algumas coisas demoram mais para se ajeitarem.

Pelas telas e teclados, mora a falta medonha: da voz que ecoa, presencialmente, em um mesmo lugar, da palavra escrita com caneta Bic e da mão que toca o braço apenas por tocar.

A vida tem me mostrado, feito mãe brava, que com o tempo não se briga. Não adianta bater o pé, resmungar ou fechar a cara. É assim que vai ser! Os amores não chegarão na primavera, as chuvas de verão poderão tardar, no outono, pelo oposto, dias frios e noites quentes e, um inverno rigoroso persistindo, mais que o necessário.

Quando vejo as velhas fotografias sinto como se meu olhar, viesse carregando ao longo dos anos, todas as minhas tristezas, muito mais que as minhas alegrias. E não importa se os cabelos brancos nos visitam ou se a leveza da infância foi-se embora. Desnecessário dizer que, talvez, não haja mais tempo, pois o próprio tempo é quem se pronuncia sobre o que ele há de entregar e levar.

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Imagem de Blauth B. por Pixabay

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Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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