No supermercado, ao passar pela prateleira de frios, parei. Por segundos, fixei meu olhar naquela embalagem redonda que, desde a década de 1980, quando cheguei a este mundo, mantém a versão circular e simpática.

_Tenho carne moída em casa e um pouco de batatinhas. Levo salsinha e pronto! Hoje, eu mesma vou fazer um pastel frito!_pensei ali, diante de queijos, iogurtes e manteigas.

Já na paz do meu lar, na máxima possibilidade de um isolamento saudável, limpei a embalagem, higienizei as mãos e preparei a carne. Na panela: o azeite, a cebola picadinha e o alho clarearam até receber o ingrediente principal. Conforme eu mexia a colher, a carne fritava junto à batatinha, temperada por ervas, pimenta e um pouco de sal. Ao lado, na tábua de cortes, a salsinha aguardava, pacientemente, a sua vez. Cozinhar é terapia, mas também é lição de vida: tudo, no seu tempo, tem a sua vez. E era hora de cuidar da massa.

Com a mão em alicate, puxei a primeira rodela. Caprichei no recheio, molhei a ponta do dedo, circulei as extremidades com um pouco de água e selei com o garfo, marcando cada pastel com os seus risquinhos característicos.

O gesto banal me levou para infância. De repente, eu tinha oito anos de idade e, ansiosa diante de minha mãe, aguardava a comidinha saborosa. Meu irmão e eu nos intrometíamos no preparo pedindo para selar o pastel e fechá-lo com o garfo, não por generosidade, mas por puro interesse em ver o petisco chegar à mesa o mais breve possível. Éramos a mãe e dois cozinheiros amadores, em uma mesa vermelha, de pés palitos e anéis dourados na base, daquelas tão comuns nos anos 80. Dali, os pastéis iam para o fogão para fritarem longe dos nossos olhares de crianças inquietas, enquanto o meu irmão caçula repousava em berço esplêndido.

Os pastéis foram comidos, a vida seguiu e, da antiga cozinha escarlate, só nos restou a travessa Duralex e um bule de porcelana, único sobrevivente de um jogo de chá que eu amava. Todo resto se modificou: nossas casas são outras, meus pais envelheceram, meus irmãos e eu nos tornamos adultos. Porém, a memória é um afeto que desafia o tempo, capaz de abrir um portal mágico sempre que escolhemos uma receita dos tempos da infância. No simples gesto de molhar os dedos e selar uma massa, no cheiro que exala de um café moído ou no ensopadinho de chuchu, a vida nos convida às lembranças, traz quem se foi, dá valor a quem ainda está aqui e mostra que, neste grande palco, o protagonista é sempre o cotidiano.

Costuramos nossas vidas no dia a dia, alinhavamos nossa colcha com as recordações do passado, mas ela só se estende, se aplicamos tecidos novos. A família cresceu, chegaram as cunhadas, a sobrinha e, em outros lugares desse mundo, saboreei diferentes pastéis. Alguns deliciosos, com recheios inusitados; outros, vazios e gordurosos. Tal como tem sido a vida, inconstante; mas que, ao contrário dos pastéis, é sempre recheada de um vento que tudo leva.

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Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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