Um dos livros que mais tem me dado prazer de ler é “Mulheres que correm com os Lobos”, da psicanalista Junguiana Clarissa Pinkola Estés. Eu leio aos poucos, absorvendo cada história e seu significado em doses homeopáticas. Acredito que seja um livro para se ler assim, pois as informações contidas, combinando mitos e histórias com análises de arquétipos e comentários psicanalíticos, têm que ser elaboradas com cuidado, já que significam um mergulho profundo na natureza feminina.

Um dos trechos do livro que me causou grande empatia foi: “Chegar ao fundo do poço, embora extremamente doloroso, é chegar ao terreno de semeadura.”

Que ninguém quer sentir dor, principalmente emocional, todo mundo sabe. Mas também é consenso que ninguém estará imune à dor, sobretudo emocional. Cedo ou tarde, experimentaremos o que significa estar à flor da pele, completamente vulneráveis e totalmente despidos de qualquer armadura que nos proteja da existência e suas desventuras.

Mas há alguém dentro de você que você ainda não conhece, e não é conseguindo todos os likes que almeja, ou adquirindo todos os bens que deseja, ou sendo completamente realizado na vida pessoal e profissional que você acessará essa pessoa escondida em seu corpo que tem tanto a te dizer. É na dor, no caos, na infinita tristeza que você encontrará a raíz da sua psique, o terreno da sua semeadura.

Deixe chegar a dor. Deixe entrar. Deixe ela te mostrar o que uma alma desprotegida é capaz de ensinar. Deixe expôr. Deixe desnudar. Não tenha medo de sangrar se isso vai trazer à tona um você que é mais você do que aquele que te encara no espelho todos os dias. Não tenha medo de desbastar a ferida se é para a cura vir em seguida.

Por fim me lembro da rosa, e na contradição que ela encerra. No encontro perfeito entre o encanto e a ferida. No pacto de dor que há por trás da beleza, e na promessa de bonança que existe encoberta por cada espinho.

Tão contraditórios quanto à rosa, são a vida e o amor. Às vezes o amor machuca, mas ele não deixa de ser amor por isso.

E parafraseando Albert Camus, no fim de nossa jornada de beleza e espinhos, talvez um dia a gente possa reconhecer que: “No meio do inverno aprendi, finalmente, que havia em mim um verão invencível”

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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