A vida corre e escorre por entre os dedos. Guardamos nossas dores em segredo e reverenciamos nossas alegrias. Não deveria ser ao contrário?

Não deveríamos guardar as alegrias como quem protege uma ametista das mãos do bandido?

Não deveríamos agradecer as dores no peito, afinal, sem elas permaneceríamos no mesmo lugar?

É a dor que movimenta a vida, mais do que a alegria. A alegria é boa, enche os olhos de satisfação. A dor não, a dor espeta a alma, mas a engrandece.

Se tudo fosse alegria, sobre o que o poeta escreveria? E se tudo fosse dor, onde nosso riso se perderia?

Recebo a alegria como quem espera a primavera. Porém, entendo quando a dor se aproxima. Afinal, o inverno faz parte do processo.

Deixo a dor chegar, se instalar, pernoitar e transmutar. Embora não a deixe morar, sei que sua passagem é necessária.

Bem como a alegria visita minha casa quase todo dia, mas não todos os dias. Até porque, o que seria da vida sem a ligeira agonia da metamorfose?

Quero metamorfosear sem medo, só por isso abro a porta pra dor. E abro logo a porta da entrada, que é pra gente se olhar de frente.

Reverencio a dor como uma oportunidade, não como castigo. Castigo é lutar contra ela, o que seria mais ou menos como enfrentar um dragão.

Eu não, eu enfrento a dor com resiliência. Estendo o tapete, passo café, recebo como uma boa amiga.

Escuto seu recado, observo exatamente por qual motivo ela veio. Faço as honras da casa. E ela fica uma ou duas noites rondando meu sono.

No outro dia, vejam só, vai embora sem mágoas ou rancor. Então, abro a casa pra alegria, que já entra como se fosse da família.

Me perguntam como aceito a dor como companhia sem desespero. A resposta é simples: porque a dor não vem sozinha, ela sempre traz sabedoria.

E é a sabedoria que nos convida a transmutar, a dor é apenas um trecho do caminho. E tudo que quero nessa vida é não deixar de caminhar.

O segredo é que não há segredo. Deixa a dor se aproximar e bagunçar a casa. Deixa que a dor tire tudo do lugar.

Melhor do que jogar a sujeira para debaixo do tapete, com absoluta certeza, é deixá-la voar para fora da casa, pendurada nas asas do tempo.

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Photo by LOGAN WEAVER on Unsplash

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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