Apaixonada estou. Completamente vidrada, viciada e me segurando para não terminar a série “Normal People” de uma tacada só, degustando cada curto capítulo aos poucos, completamente imersa na história de Connell e Marianne. A série, baseada no livro homônimo de Sally Rooney, tem apenas 12 episódios e conta os encontros e desencontros de dois jovens ao longo do tempo. Apesar de clichê, a forma como a história é narrada – com fotografia, trilha sonora e atuação honesta e impecável – recompensa e prende o espectador.

Marianne (Daisy Edgar-Jones) é, sem dúvida, minha personagem preferida de todos os tempos. O perfil “anti-herói” que ela assume ao longo da narrativa, seus escudos, sua dor e inadequação, causam empatia e identificação. A armadura de intelectualidade e irreverência que ela veste para lidar com uma estrutura familiar abusiva e a falta de amigos no ensino médio é, ao mesmo tempo, aquilo que a salva e que a torna única –  talvez “inadequada”.

Ainda que os personagens estejam se autodescobrindo ao longo da série, Marianne mantém sua singularidade, sua autenticidade, seu jeito formidável de ser “inadequada”. E confesso que esse sentimento de inadequação da personagem me fisgou, e talvez tenha fisgado muitos fãs da série também. Pois nem sempre seremos aquela pessoa bem resolvida, que sabe exatamente o que quer, que definiu muito bem qual direção seguir, que não se sente trouxa ao expôr uma opinião, se declarar para alguém, ou fazer um gesto ousado em público.

Todo dia é uma tentativa. Estamos buscando, caindo e arriscando, num empenho absurdo de dar conta de tudo; de sair ilesos da descrença e da desilusão, driblando os momentos de solidão que nos assolam mesmo quando acompanhados; de levantar após uma queda; de continuar acreditando na delicadeza das coisas; de abraçar a existência com seus finais e recomeços cíclicos.

Há dias de perdas e dias de ganhos. Há momentos em que a autoconfiança aflora e momentos em que a inadequação nos faz questionar nosso lugar no mundo. Há dias em que resistimos com serenidade e fé, e dias em que a dúvida toma conta de nossos pensamentos. Há dias de sermos incompreendidos, e dias em que comemoramos a coerência entre nosso mundo interno e externo.

Sentir-se inadequado uma vez ou outra é normal, já que a vida não é exatamente linear nem perfeita, e mesmo quem parece ter nascido com a autoconfiança na lua tem seus momentos de dúvida e autocrítica. Porém, é preciso lidar com as diferenças sem deixar que traços tão especiais, que nos distinguem no meio da multidão, causem sentimentos de inferioridade.

Marianne, da série que citei, soube fazer isso. Transformou seu jeito “esquisitão” num atrativo irresistível. No ensino médio sofria bullying, mas mesmo assim era admirada pelos colegas. Apesar de inadequada, não baixava a cabeça, bancando seu jeito diferente e irreverente com a maturidade dos que sabem que seu lugar não é ali, pois há um lugar muito melhor reservado para eles.

“O que a gente faz quando acha que não se encaixa no mundo?” Há uma tirinha muito boa do Charlie Brown que traz essa pergunta. Esse sentimento de desencaixe no mundo já deve ter passado pela cabeça de muita gente, em diferentes momentos. Na verdade, não há muito o que fazer, pois o mundo é esse mesmo, não vai mudar ou parar de girar só porque a gente quer. Então o jeito é tentar resistir da maneira que a gente conseguir, principalmente sendo honestos com o que a gente é e sente; autorizando estar triste, com raiva ou muito alegre; permitindo isolar-se de vez em quando; concedendo momentos de liberdade e gozo sem culpa; fantasiando o que não é possível no momento; e até mesmo usando uma armadura de delicadeza ou intelectualidade para se proteger dos estilhaços da existência.

No fim, é preciso entender que a vida não é linear. Ela se altera, e o que existe hoje não resistirá da mesma forma amanhã, e a inadequação do momento presente pode ser o triunfo lá na frente. Caio F. Abreu tem uma crônica que gosto muito que fala sobre isso, e finalizo com ela:

“Porque tem luz e sombra. Uma engendra a outra, uma nasce de dentro da outra. Tem amor e ódio, tem encontro e perda, tem identificação e indiferença. Tem dias em que tudo se encaixa, como no momento das peças finais dos quebra-cabeças, e tem aqueles em que tudo se desencaixa numa aflição tonta de não haver sentido nem paz, amor, futuro ou coisa alguma. Tem dias que nenhum beijo mata a fome enorme de outra coisa que seria mais (e sempre menos) que um beijo. Mas tem aqueles outros, quando um vento súbito e simples entrando pela janela aberta do carro para bater nos teus cabelos parece melhor que o mais demorado e sincero dos beijos. Precisamos dos beijos, precisamos dos ventos. Tem dias de abençoar, dias de amaldiçoar. E cada um é tantos dentro do um só que vê e adjetiva o de fora que escapa, tão completamente só no seu jeito intransferível de ver: “E eu sou só eu só eu só eu”.”

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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