Adoro a música “Acima do Sol”, da banda mineira Skank. Nela, Samuel Rosa canta: “Assim ela já vai achar o cara que lhe queira como você não quis fazer…” e eu fico imaginando as inúmeras histórias que podem ser narradas com esse refrão, de relações que acabaram por falta ou não de amor, mas em que as pessoas só perceberam que havia um sentimento, tarde demais. Porém, muitas vezes esse sentimento não é genuinamente amor, e sim orgulho ferido. É claro que se houve afeto, conexão, sentimento e vínculo, não se trata exclusivamente de um sentimento de perda, mas há muita confusão entre a dor de amor verdadeira e a dor de ter sido trocado, substituído, ou, em outras palavras, dor de perceber que a vida do outro simplesmente seguiu sem você.

Nos consideramos importantes demais. E perceber que alguém com quem construímos vínculos consegue seguir a vida tranquilamente sem a nossa companhia, pode machucar. Hoje, com a felicidade e o desapego expostos na vitrine do Instagram, essa dor advinda do fim incomoda ainda mais. Pois, além de percebermos que a vida do outro seguiu, essa capacidade de virar a página se torna pública e, nesse caso, nossa “humilhação”, também. A sensação é a de que estamos sendo observados para saber qual dos dois supera mais rápido, qual dos dois sorri primeiro, qual dos dois consegue desapegar melhor, qual dos dois faz a fila andar num tempo menor. Porém, a vida não é uma corrida pra ver quem vira a página com mais facilidade, ou consegue encontrar graça no dia a dia sem a companhia do outro.

O orgulho, em certa medida, serve para nos proteger e blindar nossa autoestima. Quando nos sentimos vulneráveis na presença de alguém, é comum nos arriscarmos menos. É como se o orgulho nos resguardasse da dor; como se ele fosse o guardião da nossa autoestima, impedindo que nos machuquemos tanto ao sermos rejeitados por alguém especial.

É comum nos depararmos com pessoas que após um término de relacionamento, dá de ombros como se não tivesse perdido grande coisa. Ou alguém que comumente é confiante e atrevido, ficar cheio de medo e timidez ao abordar alguém que lhe é especial.

No livro “Ensaios de amor”, de Alain de Botton, ele diz: “É uma das ironias do amor o fato de que é mais fácil seduzir com segurança aqueles por quem estamos menos atraídos”. Isso realmente é uma ironia, um paradoxo, mas com certeza uma verdade. Quando não estamos tão atraídos, não nos protegemos tanto. Assim, nos arriscamos mais. E, muitas vezes, somos muito mais bem sucedidos na conquista. Porém, quando há envolvimento emocional e sentimos o quanto poderemos ficar abalados com uma negativa ou um vácuo, nos blindamos. E acabamos caindo nos joguinhos do orgulho, que nada mais são que tentativas desesperadas de preservar nosso ego intacto.

Em outro livro: “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, há uma passagem que diz: “A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos, a vaidade com o que desejamos que os outros pensem de nós”.

Assim, o orgulho seria o guardião da sua auto estima. Porém, se por um lado ele é importante para impedir que você seja “trouxa” ou “capacho”; por outro lado, quando você tem uma autoestima muito frágil, ele te blinda de simplesmente viver e se arriscar. Assim, uma pessoa que constrói muros em torno de si e se blinda – muitas vezes passando a imagem de alguém auto suficiente e bem resolvida – pode ser uma pessoa com medo e com a autoestima frágil. “O orgulho se relaciona mais com a opinião que temos de nós mesmos”  

Se proteja a ponto de não permitir que pisem em você, mas não deixe que o orgulho o impeça de se arriscar e viver as coisas boas da vida. Viver carregando a eterna dúvida do “e se…” nos adoece e rouba nossa liberdade. E talvez um dia, tarde demais, possamos perceber que um “não” seria o pior que nos ocorreria, mas o “sim” teria mudado nossa vida.

Quanto ao orgulho ferido, ou a percepção de que a vida do outro seguiu muito bem sem você, meu conselho é: filtre seus sentimentos e reconstrua sua autoestima longe do binóculo alheio. Siga seu caminho e dome sua curiosidade: desista de fuçar, stalkear, acompanhar. Cuide de você e liberte seu coração dessa mágoa. Toque seu barco sem perder a fé em si mesmo e, quando a maré subir demais, apenas não desista. Um dia de cada vez, sem pressa, sem necessidade de mostrar ao mundo que superou. Apenas não desista… 

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

3 COMENTÁRIOS

  1. Só existem duas avaliações perante as separações, ou perdem, ou ganham os dois. É esta evidencia que deve nortear o antes mas sobretudo o depois. Os sentimentos não revelam feridas, somos nós que as queremos ver onde elas não existem.

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