Em um canto escondido da casa, dormem na caixa de papel, as memórias da adolescência. Diários antigos, cartões de aniversários e de Natais, letras de músicas preferidas, cartinhas com juras de amor que não se concretizaram. Entre os escritos, velhas fotografias de namoradinhos e amigas que, sequer imaginavam, perfis em mídias sociais. Adormecidas, essas lembranças, de vez em quando, me convidam para despertar.

Passo o pano sobre a caixa empoeirada e levanto a tampa como quem abre um baú de moedas de ouro. De repente, a campainha toca: é a minha colega dos tempos de colégio, ainda menina. Com uma franja alinhada sobre a testa, ela entra com seu uniforme azul-marinho e o brasão da querida escola, bordado na manga do ombro esquerdo. Sem cerimônia, como nos velhos tempos, me avisa que “as outras” estão chegando. Dezenas delas: algumas de bermudas de lycras coloridas, outras – já adolescentes – com vestidos de alcinhas finas e meias-calças pérola. Vão se amontoando no meu quarto e dizendo, entre risadas, tudo que estava escrito naqueles bilhetes e cadernos de enquetes, já meio amarelados:

“O deserto que atravessei, ninguém me viu passar”. Eu amava essa música na voz da Zélia Duncan, por isso, a escrevi no seu caderno.

A música “Quase sem querer”, do Legião Urbana, escrita com caneta BIC azul. Transcrevi apertando o botão pause no som de fita cassete do meu pai.

Olha! Olha! Eu escrevi essa frase porque estava apaixonada pelo Paulinho!

6 de fevereiro de 1995: primeiro dia de aula e eu já não aguento mais pensar em Matemática.

Que neste Natal, você ganhe o CD do Backstreet Boys e um beijo do Fred!

E, quando percebo, já não são mais somente elas. Os moços também chegaram! Magricelos, com seus cabelos de corte surfista, jaquetas da Hard Rock Cafe e bigodinhos que teimavam em aparecer. Estão, tal e qual como nas fotos: rapazotes de olhos marotos, com uma vida inteira pela frente. Eles me dizem, querendo fazer charme, que na noite passada, jogaram flores na minha garagem e fizeram serenata, usando o som do carro. Contam, cheios de si, que beijaram Fulanas, mas, no fundo, sabíamos: ouviam More than words pensando em Beltranas.

De repente, estou em uma festinha na garagem, em pleno anos 90: ouço Pet Shop Boys, ganho o bombom Sonho de Valsa; abro uma bala Icekiss com recadinho; sinto misturados os perfumes Quasar e Thaty. Nas paredes, pôsteres do Bon Jovi, Leonardo DiCaprio e Fábio Assunção. Estamos todos rindo, felizes e sem preocupações adultas.

E, conforme as memórias caminham pelo quarto, sinto o aparelho nos dentes, as paixões platônicas e as incertezas que pipocavam como espinhas. Todos me olham, cheios de vazios bonitos, histórias para serem escritas, sonhos para serem construídos, amores e desamores para serem vivenciados. E, grata por cada lembrança, recolho os papéis, um a um. Despeço-me, sabendo que voltarei qualquer dia desses. As colegas da escola, as amigas de uma vida inteira, os rapazes que não são mais “amores eternos”, vão entrando na caixa. Adormecem mais uma vez, pois é preciso recordar, mas jamais abandonar o presente!

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Photo by Marcelo Rangel on Unsplash

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Cristiane Mendonça
Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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