Queimou a mão e se debulhando em lágrimas, correu para a mãe. Algum tempo depois, vieram as bolhas. Ainda chorosa, lamentava-se. A mãe, compadecida, pegava as pequenas mãozinhas e soprava um afeto que curava. Curava dor de queimado e de espinho no pé. Curava o que doía por dentro e o que machucava por fora. Mãe cura tudo, ela pensava.

Porém, crescemos e descobrimos que mãe também machuca, nos magoa e pisa na bola. Mãe; pasmem: também é ser humano! Mãe sente raiva, fica cansada, quer sumir e deixar tudo para trás. Mãe fica triste e chora, mãe também se apavora. Queima o feijão, não veste as roupas que consideramos as mais legais, não escolhe os melhores sapatos e leva bronca do chefe. Ora! Essas mães, acreditem: caminham por aí aos montes! Mães, humanamente, imperfeitas que geram traumas, não atendem nossas expectativas e dizem não – quando devem e quando não sabem se devem.

Mães de Aquário que enxergam à frente, mães de Sagitário que liberam para a balada, mães de Câncer que se magoam facilmente e mães que parecem nem ter signo. Mãe que não existe para atender expectativa de filho. Mães que sentem tesão, mães que anulam seus desejos, mães que gritam, mães que calam, mães que são cruéis, mães que vão embora, mães que sempre morrem antes da hora.

Mães e seus universos complexos: de buracos negros, sóis e estrelas, meteoros e mistérios. Mães que amam com a fúria de um tsunami, mães que acolhem como mães, mães que morrem pelos filhos, mães que deixam de comer para colocar no prato de sua prole. Mães universais, gigantescas, mães poderosas, cujo amor não é humano, é divino. Mãe que acolhe um ou cem, mãe que não engravida, mas espera; mãe que pare pelo coração. Mães das próprias experiências, mães sem revista Crescer, mães sem filhos que distribuem o instinto maternal a quem lhes cerca. Mães, que tal como a palavra, são cheias de vogais e pronúncias macias.

Por isso, no próximo Dia das Mães, eu reverencio a vida como ela é: permeada pela nossa diversidade e complexidade, fazendo de cada um de nós, seres capazes de amar e errar na mesma medida.

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Cristiane Mendonça
Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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