É difícil aceitar que a gente não tem o controle sobre tudo. É difícil perceber que nem todos irão permanecer ao nosso lado, mesmo que a gente deseje muito. É difícil escolher um caminho tendo que renunciar a outro. É difícil desistir de uma história que acabou no dia a dia, mas não finalizou dentro da gente. É difícil perdoar nossa incapacidade de abraçar o mundo e aceitar as despedidas que acontecem com ou sem o nosso consentimento.

Dizem que a vida segue e o tempo cura, mas muitas vezes não queremos que o tempo cure nada, pois “nos curar” das lembranças e do que sentíamos significa aceitar o fim, e isso é tão difícil de lidar que acabamos nos prendendo à dor, pois ela – ao contrário do esquecimento – ainda pode nos ligar àquela história, mesmo que de forma distorcida.

Ela era péssima com despedidas. Comprava as passagens, fazia a mala, enxugava o pranto e não olhava para trás. Mas dentro de si as horas não passavam, o calendário não avançava, as estações congelavam. Sorria um riso machucado e acenava um adeus ensaiado.

Ela não entendia o porquê de ser assim. Mas sabia que algumas coisas dentro de si eram impossíveis de serem dominadas. Podia sorrir e acenar gentilmente, mas não era capaz de controlar o lamento silencioso que a habitava, e que lhe contava que a dor enfeitiçava, e por isso tinha que sorrir, só por teimosia, para não dar o braço a torcer para a melancolia.

Desistir, despedir e desapegar eram verbos que ela não tinha aprendido a conjugar, pois havia sido instruída na escola da esperança, e seus cadernos tinham as folhas preenchidas com a caligrafia da saudade. Arrancar uma a uma aquelas páginas doeria, mas precisava ressignificar os verbos sentir e perdoar, pois não havia nada de errado em seguir em frente, do mesmo modo que não devia haver culpa em deixar pra trás.

Pois no final das contas, a gente cai, levanta, se esfola e cresce. Mas acima de tudo, sai mais vivo.

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Fabíola Simões é dentista, mãe, influenciadora digital, youtuber e escritora – não necessariamente nessa ordem. Tem 4 livros publicados; um canal no Youtube onde dá dicas de filmes, séries e livros; e esse site, onde, juntamente com outros colunistas, publica textos semanalmente. Casada e mãe de um adolescente, trabalha há mais de 20 anos como Endodontista num Centro de Saúde em Campinas e, nas horas vagas, gosta de maratonar séries (Sex and the City, Gilmore Girls e The Office estão entre suas preferidas); beber vinho tinto; ler um bom livro e estar entre as pessoas que ama.

2 COMENTÁRIOS

  1. A gente pode até “ser péssima com despedidas” mas está se despedindo, desde que nasce, começando por dar tchau para o útero quentinho de onde a gente não queria sair mas teve que. Se despede do berço e do colo de mãe, quando aprende a andar; se despede dos sons guturais que só “ela” entendia para falar mamãe, com o capricho de pronunciar todas as sílabas; se despede do seio “dela”, de onde vertia nutrição e aconchego para a frieza das tigelas com papinhas mornas nelas, em nada semelhante ao intercâmbio celestial daquele abraço, antes; se despede “dela” para entrar na escola no primeiro dia, onde tudo é novo, o uniforme, os cadernos coloridos e os lápis de cor, os coleguinhas, a professora e a carteira onde apoiar os rabiscos de quase desenhos; a gente se despede da infância, da juventude, da madureza e, na velhice, se despede da agilidade, dos cabelos e dos dentes, após ter dado adeus aos amigos, aos pais e às vezes ao filhos e netos, até se despedir dessa vida que alguns acreditam única mas que é só véspera de outra, assim como quem entra em Nova Escola, com um pouco de medo, é verdade, mas para saber cada vez mais.

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