Deixar ir é tão importante quanto saber deixar entrar. O ciclo da vida funciona exatamente assim: “rodas dentadas que se ligam a eixos, aos quais imprimem rotação e torque, transmitindo assim potência”.

É a engrenagem da vida, onde emoção e razão conduzem o moinho de vento, que só gira equilibrado se tudo estiver em sintonia.

Deixar ir é buscar justamente essa sintonia que se perde ao longo de tempo, é também uma forma dolorosa de desapego, onde se abre a porta para que vá sem mais voltar.

Nunca tive medo de deixar ir, muito embora já tenha sofrido muito com algumas partidas. É impossível não sentir dor, mas é ainda mais cruel deixar estar onde não há mais espaço.

Quando a gente se diminui para que o outro caiba é chegada a hora da despedida. O espaço se apequena e o que parecia confortável se torna uma cama de espinhos. E as feridas ficam abertas, em chamas, queimando tudo até que você deixe ir.

Deixe ir o que não cabe, o que já não colabora para a engrenagem da sua vida. Deixe ir o que lhe pesa a alma, o que não é de verdade, o que só aparenta ser.

Quando você deixa ir, apesar da dor que isso causa, você abandona junto uma boa parte do peso de quem vai embora. A outra parte você se livra com o tempo, pois sempre fica uma parte.

Com o tempo, esse rei das engrenagens, o seu moinho gira no sentido certo. As despedidas limpam as rodas e os eixos para o fluxo da energia ficar mais transparente.

As pessoas morrem de medo do fluxo transparente, pois é desse jeito que se enxergam de verdade. E isso pode ser absolutamente doloroso.

Porém, absolutamente necessário.

É preciso enxergar ao invés de só olhar. Você olha tudo que está guardado nos armários, mas não enxerga? É porque você só olha.

Só olhar não adianta. Olhar não lateja. Enxergar, sim. Limpe os armários, tire o que não se encaixa mais com o tom das suas paredes, com o piso que seus pés tocam.

Pegue tudo o que não é mais necessário para a sua engrenagem e, olha só, não coloca para debaixo do tapete, mas joga fora. Abre a porta, joga fora de uma só vez, que é pra doer de uma só vez também.

Depois que a emoção triste de não ter mais aquilo guardado passar (sempre passa, viu?), você vai ficar leve e pronto para viver mais uma parte da vida, sem amarras.

Não é fácil deixar ir, mas não faz o menor sentido querer que fique o que não está inteiro. De migalha já basta o farelo do pão, esse que você limpa com os dedos úmidos de saliva.

Deixe ir, aprenda a deixar ir. Abra a porta para o que não cabe mais na sala de estar da sua vida.

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Photo by Oliver Hihn on Unsplash

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

1 COMENTÁRIO

  1. Uma arte, o desapego. Passarinhos na gaiola sinalizam que pessoas não sabem apreciá-los em liberdade, definindo sua própria rota de vôo, por isso preferem ser cruéis com eles, impedindo-lhes a escolha. Desapegar-se do supérfluo para que reine o imprescindível não é fácil, porém é necessário para que algemas da posse não nos tolham o passo que nos atrasa a chegada, se é que sabemos para onde vamos. Objetos sem uso estragam, enferrujam e roupas apodrecem se não nos desapegamos deles; quem sabe, um exercício de como não escravizar pessoas em nome do suposto amor que lhes consagramos, egoisticamente, como aves engaioladas em nosso coração, vocalizando pedidos angustiantes de socorro, que nós erroneamente supomos as canções que não são, infelizes que estão prisioneiras inocentes na prisão.

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