Qual é o melhor momento do domingo? Alguns responderão a oportunidade de acordar tarde; outros, a hora do almoço; uns, o cochilo após a refeição. Eu, no entanto, fico com o café da tarde. Ali pelas 16h, quando o domingo ainda tem o seu frescor e, lá fora, as pessoas parecem repletas de silêncio e ócio.
Admito que, muitas vezes, decido o lanche das tardes de domingo no meio da semana, justamente nos dias em que, por falta de tempo, o pão francês é a saída recorrente. Então, na quinta-feira, cansada de pão, dou o veredicto: no domingo, teremos bolinho de milho frito. E assim é feito!
Como uma sombra, caminho silenciosa pela casa e ligo a cafeteira. Enquanto o cheirinho de café fresco invade a cozinha, ligo para minha mãe e peço, pela milésima vez, o passo a passo da receita. Ingredientes memorizados, escolho uma vasilha colorida, quebro os ovos, acrescento o fubá, os grãos de milho fresco, coloco pedacinhos de queijo, além de sal e fermento. A pimenta cumari em conserva – presente da hortinha de minha avó Maria – dá o toque final e sutil. O óleo, conforme esquenta, vai amorenando os bolinhos. Um a um os retiro da panela para um prato forrado com papel absorvente, onde os quitudes vão esfriando aos poucos.
Na mesa posta: café passado na hora e bolinho de milho frito com sabores de memória. O cheirinho do fubá e o barulhinho crocante são as sensações físicas do presente, mas o gosto é uma viagem ao passado. A minha cozinha, então, como mágica se transforma: não é mais um cômodo pequeno, de uma casinha em Belo Horizonte e, sim, a velha varanda dos meus avós, em Arcos. Os primos, ainda crianças, sentados nos bancos de madeira com as duas mãos ocupadas: uma pelo bolinho e, a outra, pelas diferentes xícaras disponíveis na casa. Satisfeitos, saboreamos o cafezinho da tarde, fazemos piadas uns dos outros e damos risadas. Até tudo se acabar, como agora.
São outros domingos, de novos cafés, mas de velhas memórias que se achegam no ócio de uma tarde em que cozinhar é uma oportunidade. Talvez, por isso, a melhor parte do meu domingo é sempre a tarde. Na cozinha, diante do vagar das horas, sinto gostos, repito gestos, mas, principalmente, reverencio as minhas memórias com alegria e paz.
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Copyright © 2020 I Cris Mendonça. Bolinho de milho frito, café e memória. Todos os direitos reservados.
Imagem de capa: Cris Mendonça
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