Os lençóis listrados dançaram no varal, enquanto as portas dos vizinhos bateram em sequência quase combinada. A ventania que anunciava a chuva chegou repentina e, repentina, partiu. Deixou como lembrança sutil, apenas uma folhinha seca que caminhou pelo piso de cimento grosso fazendo barulho com o seu arrastar. Finalizado os arroubos do vento, veio a calmaria magistral, tão palpável que eu era capaz de tocá-la na face.

_Grandes silêncios, grandes temporais!

O céu, cheio de si, foi escurecendo como se uma tinta guache azul-marinho tivesse caído sobre um papel branco. Longos minutos depois, a chuva desabou.

As roupas foram recolhidas, as janelas fechadas e as portas trancadas como se a água não pudesse encontrar outros caminhos para entrar, caso ela quisesse. Aparelhos eletrônicos desligados, tomadas ao chão e a sinfonia enfurecida da chuva lá fora reduzindo tudo e todos à real insignificância.

Apreensiva sobre as pessoas que estavam lá fora, lembrei-me das histórias que ouvi sobre as mães de antigamente, que com medo da chuva, escondiam os filhos debaixo das mesas de madeira, enquanto as águas do céu caíam bravas sobre os frágeis telhados coloniais. Naqueles tempos sem arranha-céus, os raios escolhiam, facilmente, as casas e, os trovões, pareciam fazer tremer as paredes. Quando a chuva acabava, era possível ver de longe como os rios multiplicavam o volume, mas sem que para isso, disputassem espaço com casas e asfaltos, como ocorre agora.

Quem vem do interior, acostumado com mata e rio, sabe que chuva brava é tão antiga quanto o respeito dos mais velhos pelos temporais. Não se enfrenta e nem se desafia aquilo que é mais forte que nós, assim como a avó, que em dias de chuva forte pega o terço e se esconde no único cômodo com forro da casa, para rezar. No entorno da casa dela só há mato e, quilômetros abaixo, um rio corre. Mesmo que haja enchente, as águas barrentas não se aproximam, pois margem de rio é lugar de árvore e não concreto. Gente antiga sabe, sem ter feito nenhuma faculdade, que a natureza cobra tudo que lhe é tirado!

E, dessa forma, quando a chuva findava lá fora, num passado – ainda lembrado – nossos avós e bisavós tiravam os pequenos debaixo das mesas, cessavam as orações e recolhiam as telhas quebradas. Enquanto, atualmente nós – viventes de uma terra devastada – acessamos nossas redes sociais para sabermos dos estragos e das vidas perdidas pelas chuvas ancestrais.

_Grandes temporais, grandes silêncios!

Photo by Min An from Pexels

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Cristiane Mendonça
Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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