Faz tempo, muito tempo, que eu não narro aquele amor bonito por aqui. Fiquei vasculhando textos antigos e descobri tão pouco de mim — da gente — nas entrelinhas daquilo que foi escrito, que pensei nos diversos motivos de ter parado de escrever sobre o amor bonito aqui. Eu senti falta da leveza que tinha nas palavras que te escrevia e fiquei remoendo linhas antigas e me vendo ali. Nos vendo ali. Era tão bonito tudo que te escrevia. Ainda é bonito tudo que a gente sente, acredito, mas não entendo porque nosso sentimento não vira mais poesia.

Sei lá, acho que fiquei descrente. A vida veio me forçando a ser gente e encarar os problemas de frente. E eu fui ficando um pouco cética e fria. Distante. Afastei-me de mim e, consequentemente, nos afastei da gente. Eu me escondia em qualquer história mal contada, eu me via em qualquer linha mal narrada e fui qualquer um desses personagens toscos, porque eu quis ser tudo — menos eu mesma.

(…)
Esses dias eu fingi dormir, porque não queria que você visse meus olhos vermelhos de tanto chorar. Quis te poupar as perguntas. E quis me poupar das respostas, porque eu não sabia bem o que responder. Então controlei a respiração e fiquei miúda, esperando você se ajeitar debaixo das cobertas. Aí você veio, me abraçou pelas costas, deixou um beijinho de cerveja no meio dos meus cabelos loiros e me apertou contra si, ignorando o fato de que — teoricamente — eu estava dormindo. Ali eu me desfiz, mais minúscula do que nunca, mais fraca do que sempre.

E tão tua. E tão a gente, que fiquei pensando porquê faz tempo, muito tempo, que eu não narro aquele amor bonito por aqui.

***

Imagem de S. Hermann & F. Richter por Pixabay

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Mafê Probst
Engenheira, blogueira, escritora e romântica incorrigível. É geminiana, exagerada e curiosa. Sonha abraçar o mundo e se espalhar por aí. Nascida e crescida no litoral catarinense, não nega a paixão pela praia, pelo sol e frutos do mar.

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