Infelizmente, a realidade de Allice Serafim, 71, é a mesma de muitas mulheres no país – tanto antigamente quanto hoje em dia. Ela havia sido de proibida de estudar pelo pai quando era pequena. Hoje, mesmo na terceira idade, Allice foi adiante e resolveu realizar o sonho da vida dela: estudar Engenharia.

Dona Allice mora em Catanduva, interior de São Paulo, e começou a faculdade ano passado e já está no terceiro semestre do curso.

Ela divide a sala de aula com alunos na faixa etária dos vinte anos e ainda assim é muito querida por todos os colegas e professores.

“Acredito que estão na minha vida por alguma razão, trato todos iguais meus netos e filhos. Sou uma aluna aplicada, mas em qualquer dificuldade, eles estão lá para me ajudar a entender a matéria”, conta.

Os professores inclusive, são só elogios pra ela – e com razão:

“Ela sente muita dificuldade, o que é normal pela idade, mas ela tem muita garra, é muito dedicada. Já tive outros alunos mais velhos que eu, mas a Dona Allice se destacou entre todos pela garra, ela não desiste, muito pelo contrário, ela quem anima a gente”, disse Nilton Romero, coordenador do curso.

Todos os dias Allice chega antes do horário para tirar dúvidas e para aprender funções básicas da matemática para não sentir tanta dificuldade na hora de fazer os exercícios.

Mesmo sabendo da dificuldade e da competitividade do mercado de trabalho atual, a futura engenheira sonha em trabalhar na área.

“Ainda tenho fé que vou trabalhar. Mas se não der certo, tudo bem. A minha vontade é de estudar e ajudar as pessoas e fazer o bem”, conta.

Dona Allice foi proibida pelo pai de estudar a partir dos 8 anos de idade, ou seja, nem terminar a escola fundamental ela conseguiu. Quando ela completou 18 anos, ela se casou – algo normal na época, e o marido também não a permitiu que frequentasse a sala de aula.

“Em 1955 meu pai me tirou da escola, porque para ele mulher naquele tempo não tinha que estudar e sim casar e cuidar da família. Com 18 anos me casei e meu marido pensava que nem meu pai, por causa disso eu nunca estudei”, contou Allice.

Allice precisou aprender a ler e escrever dentro de casa. Pegava um caderno e uma Bíblia e ia escrevendo as palavras que via até que um dia conseguiu. Foi a partir desse momento que despertou nela a vontade de terminar os estudos e realizar uma faculdade.

“Eu queria aprender as palavras, então tive de me virar sozinha, até que um dia eu aprendi. Desde então, tinha dentro de mim que um dia eu iria estudar”, contou.

Ela então correu atrás de um supletivo para terminar o seu ensino médio. Logo depois, Allice fez aulas de como falar e lidar com o público, aulas de violão, informática básica e até contabilidade.

Allice diz que que sempre se interessou muito por engenharia e que achava ela uma profissão importante na sociedade, além de considerar um círculo de pessoas inteligentes.

Um dia ela ficou sabendo em uma propaganda que uma faculdade particular da cidade estava oferecendo bolsa para o curso de engenharia de produção e resolveu tentar o vestibular. Ela passou, óbvio. E o resto, ao menos por enquanto, já sabemos como vai ficar.

Que mulher guerreira, né?

Com informações do G1

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