A cafeteira foi esquecida ligada na tomada. O café, com gosto requentado, a energia elétrica desperdiçada e a distração em si, denunciavam o que havia se passado naquele domingo de céu estranho. Um dos dois havia feito a mala e partido. Um adeus dito em parcelas miúdas por longos anos, havia enfim, se concretizado. As doses homeopáticas, porém, não amenizaram a dor do término.

O guarda-roupa vazio, os cabides desocupados e as duas xícaras de café, sujas na pia, sussurravam os medos e as incertezas. Nada mais parecia estável.

O silêncio da casa recém-abandonada parecia alargar as paredes. De repente, tudo ficara grande demais: o novo caminho, o medo e a dor.

Havia tomado a decisão certa? Foi impaciente? Exigente? Quem sabe, doze anos não foram suficientes para amadurecerem, de fato, a relação? As perguntas se amontoavam junto à papelada deixada no sofá. Decidiu deslizar a mão até o criado-mudo, pegar o telefone e ligar para a amiga de infância. Do outro lado, as palavras de consolo, não a consolaram. Mas, um conselho certeiro foi dado:

_Vai passar!

Assim como passaram as trocas de olhares, os flertes, as mensagens de bom dia,  as longas conversas pelo telefone e aquele desejo incontrolável do início de qualquer relação. Os gostos parecidos, tais como, o amor pelos livros de Gabriel García Márquez e a preferência por pizza com vinho, foram perdendo a cor, ao mesmo tempo em que se repintavam pela parceria construída ao longo dos anos. A certeza de quem confia um no outro, os sonhos cumpridos, os esquecidos pelos caminhos e os novos que surgiram.  A cirurgia inesperada. A grana que juntaram para realizarem a tão sonhada viagem a Londres, foram aos poucos, esmaecendo como fotografias antigas. Num dia qualquer, perceberam que viviam uma relação sem rótulos que perambulava entre a amizade e o conforto do que já é sabido: o sogro querido, o concunhado que era quase como irmão, o papel de padrinho da sobrinha dela e as férias na casa de praia. Entretanto, até o que parecia cômodo, de repente, também passou. E por mais que todas essas histórias fossem importantes para cada um deles, elas foram sendo minadas pelo desejo – persistente e silencioso – de sentir mais uma vez. E, quando fingiam que não, oprimidos pelas incertezas, a insatisfação lhes sussurrava, noturnamente, aos pés do ouvido:

_Vocês não se desejam mais! 

E, por isso, terminaram. Findaram. Fecharam. Choraram.  Esqueceram. Recomeçaram. Tentaram. Erraram. Continuaram.

Foto de Kinga Cichewicz em Unsplash

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Cristiane Mendonça
Cris Mendonça é uma jornalista mineira que escreve há 14 anos na internet. Seus textos falam sobre afeto, comportamento e Literatura de uma forma gostosa, como quem ganha abraço de vó! Cris é também autora do livro de crônicas "Mineiros não dizem eu te amo".

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