Desci as escadas, olhei a caixa de correio e repentinamente teu perfume me afagou o rosto, me perdi até tropeçar nas minhas pantufas que, veja só, tem tirado toda a autoridade que conquistei com essa barba falhada. Não só teu cheiro, mas o som da tua respiração, teus cabelos pelo chão e tua voz quebrando o silêncio destas paredes brancas.

Eu deveria dizer que sinto saudade, que evitei trocar as fronhas por duas semanas porque restava um pouco do teu cheiro. Eu deveria dizer que tua melanina combina com a minha poesia e tua pele com a paleta de cores desde as minhas camisetas até a luz que entra pela janela do corredor ao entardecer.

Tava aqui dedilhando um ukulele, meio sem ritmo como quem nunca tocou nada, cantarolando que, “Se for preciso, eu pego um barco, eu remo, por seis meses, como peixe pra te ver”. Eu deveria dizer que é tu que dá nome a minha saudade, que sonhei com tua boca e acordei tateando a cama.

Eu deveria dizer uma centena de coisas, mas, me reservo ao silêncio, fico assistindo teu sorriso dançar pelo mundo e o quanto a vida é boa com você. Queria que a tua saudade fosse tanta, que batesse na minha porta numa quinta-feira às oito horas, só pra dizer que chegou mais cedo pra me ver, só porque que a sexta tava longe demais.

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Imagem reprodução autorizada-  Instagram

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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