Tinha apenas vinte e sete anos e já estava cansada de tentar entender tudo. Vinte e sete anos e desejava a paz de desconhecer a maioria dos mistérios do mundo. Tinha se formado em engenharia, mudado de cidade, se casado com o terceiro namorado. E agora, aos vinte e sete, encarava a face incompreensível da vida pela primeira vez. Havia um mistério envolvendo a maioria de todas as coisas que julgava certas, e desvendar esse mistério não era mais uma busca ou necessidade. Ia permitir-se ser parte do mistério também.

Nem tudo mora no visível, agora ela compreendia. Assim, questionou a própria mania de listar prós e contras, a arrogância de achar-se perita nos mais diversos assuntos, a satisfação de decifrar as mais complicadas equações, o desejo de controlar tudo. O imprevisível e o inexplicável tocavam sua face agora, e abraçar a nova realidade era sua única saída e salvação.

Sua força não estava mais nos livros que leu, nos cálculos que resolveu, nas músicas que ouviu, nos filmes que assistiu. Sua força estava no mistério que a habitava, e que a conectava de uma forma nova com a vastidão do mundo e da vida.

Tinha nascido Tereza, mas agora tornava-se uma mulher muito diferente daquela que sua mãe pariu. O novo parto, sem anestesia alguma, trouxe à tona uma nova Tereza, a que desistia de tentar entender ou explicar, e agora apenas aceitava. Aceitava sua singularidade, a incapacidade de moldar-se para agradar, a escassez de certezas. Era mais contemplação que contestação, mais mergulho em si mesma que medo de se aprofundar, mais contradição que simetria.

Estava descobrindo seu próprio tempo, não o tempo dos relógios, mas seu tempo interno, e esse era o que mais importava agora. Seus novos instantes traziam uma escuta atenta aos seus desejos, um perdão às suas imperfeições e um enorme respeito por sua individualidade.

Abria mão da culpa e confraternizava com a alegria clandestina que vivia dentro dela. Sua felicidade mais pungente era aquela que abraçava sua alma, e a fazia sorrir, assim, do nada, no meio de uma conversa animada ou recolhida em seus próprios pensamentos.

Não havia encontrado respostas, mas a constatação de que há muito mais por aí do que a gente possa entender ou explicar tirara-lhe um peso dos ombros. Abria mão do controle, dos palpites, dos juízos e previsões. Queria a liberdade de afogar-se em seu próprio pranto ou de transbordar seu riso e gozo sem condenações.

Tinha vinte e sete anos e havia amadurecido. Não por ter se formado em engenharia, casado com o terceiro namorado e mudado de cidade. Mas sim porque, mesmo sem entender, decidira abraçar a própria história com todas as lágrimas, noites sem dormir, borboletas no estômago e alegrias dançarinas que vieram se somar, sem convite, ao que ela era.

Desistiu de compreender a vida quando a casa que havia construído dentro de si perdeu o telhado. Ganhando as estrelas, teve a clareza de que muitas vezes a gente perde o que achava importante, mas conquista o que não imaginaria, nem em um milhão de anos, que aqueceria nosso coração. Vida é mistério…

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Fabíola Simões é dentista, mãe, influenciadora digital, youtuber e escritora – não necessariamente nessa ordem. Tem 4 livros publicados; um canal no Youtube onde dá dicas de filmes, séries e livros; e esse site, onde, juntamente com outros colunistas, publica textos semanalmente. Casada e mãe de um adolescente, trabalha há mais de 20 anos como Endodontista num Centro de Saúde em Campinas e, nas horas vagas, gosta de maratonar séries (Sex and the City, Gilmore Girls e The Office estão entre suas preferidas); beber vinho tinto; ler um bom livro e estar entre as pessoas que ama.

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