Qualquer motorista conhece a regra: Sob nevoeiro, use farol baixo. Porém, na vida, também deveria prevalecer essa norma, visto que nem sempre estamos diante de situações que dominamos completamente, ou na presença de pessoas que conhecemos profundamente.

Na dúvida, não tenha pressa. Na incerteza, caminhe com cautela. Diante daquilo que não conhece ou não domina, vá devagar. Ande lentamente sobre terrenos incertos e, sob nevoeiro, use farol baixo.

Temos vivido tempos em que tudo caminha muito rápido, na velocidade de mensagens enviadas e prontamente visualizadas, no tempo das relações líquidas e pouco profundas, na fluidez de pensamentos e ações. Todo mundo se acha expert em todos os assuntos, todo mundo se considera conhecedor da vida do outro, todo mundo acredita que seu lado da história é o lado certo. Ninguém estaciona para apreciar a paisagem, ninguém abaixa o volume para ouvir o que o outro tem a dizer, ninguém acende o farol baixo sob o nevoeiro. Queremos ofuscar, engatar, acelerar, articular… e pouco nos preocupamos em silenciar, estacionar, ausentar.

Os dias têm passado muito depressa. Segunda, terça, quarta… sexta, fim do dia, fim de semana, próximo mês. Corremos atrás do tempo e, no entanto, o tempo se perde em divagações, conhecimento vago, deduções, perda de tempo. Com celulares em punho, queremos ler na frente a notícia, o boato, entender a divergência. E o instante que prometia ser extenso, agora acusa que não há mais tempo.

Quero faróis baixos sob neblina, cautela frente ao que não conheço, permanência em mim do que me traz apreço. Não quero a urgência de sair na frente, a incumbência de conhecer todas as notícias, a exigência de ter argumentos. Quero a serenidade da humildade, a paz de não me considerar perita em nada que não é da minha alçada, a simplicidade de admitir que não sei realmente quase nada. Que o presente seja meu aliado e me traga alento, que não me perca com excesso daquilo que não entendo e que, restaurada pela leveza do momento, possa silenciar minha boca e meus pensamentos e enfim descobrir que é devagar que a gente aprecia a vida e pausa o tempo…

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

1 COMENTÁRIO

  1. Sem tempo para os outros e para nós, na pressa atropelamos valores, jóias raras, corações, emoções e sentimentos, profanamos relíquias e até ultrapassamos anjos, sem enxergá-los. Não louvamos o pão de cada dia nem as estrelas de cada noite, sem tempo. Filhos crescem depressa; ontem mesmo eram os bebês que não vimos crescer direito porque corríamos demais. Sem tempo de nutri-los, banhá-los e beijá-los, quase não reconhecemos o rosto que nos fita a nos chamar de Mãe: quem sou eu, quem são eles? Reclamamos do jardim sem as flores que não plantamos e criticamos os amigos que nos deixaram, mas nunca os fomos ver: faltou tempo. Por isso os perdemos e os culpamos pela perda,incapazes de ajuizar, com calma, vítimas ou réus. Seguidores na Internet desconhecem nossa senha, atalhos para chegar ao coração quando ele sofre e carícias virtuais não estancam lágrimas reais, que pena. Então fazemos barulho porque o silêncio nos oprime, nos esmaga e questiona sobre onde não fomos ajudar quem sofria, alimentar quem tinha fome e salvar quem morria. Sem tempo. Nem ao menos rezar por eles, foi possível, a prece que os poderia nortear e nos guiar também ao mesmo Deus, mas pesquisamos no GOOGLE, pouco provável que Ele exista, por isso não cremos Nele.

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