Sim, quando uma mulher é enganada por um homem, todas nós, mulheres, nos revoltamos. Ainda que não tenhamos nada a ver com a história, ainda que nem conheçamos direito as pessoas, nos doemos e nos insurgimos contra a classe masculina.
Não que sejamos todas santas – longe disso! -, mas é que o peso é bem diferente para nós. São séculos de machismo e repressão que pesam sobre os nossos ombros.

Por muito tempo fomos diminuídas àquelas que são responsáveis tarefas “mais simples” – aquelas que não são rentáveis. Os homens, “machos alfa”, eram os que faziam o trabalho “pesado” e saíam para ganhar o sustento da família. Mereciam ser adorados, venerados e agradados por isso.

Nós, com as nossas tarefas “fáceis” e “gratuitas”, deveríamos estar belas e cheirosas para quando eles voltassem. Precisávamos estar disponíveis para quando eles quisessem “se aliviar”. Isso fazia parte de “cumprir os seus deveres matrimoniais”.

E tudo bem se o homem azarasse mulheres fora de casa, afinal de contas, faz parte da sua natureza “viril”. E se “pulasse a cerca” vez ou outra, também não era nada absurdo.

Não se tinha muita preocupação sobre as tarefas da mulher, o cansaço da mulher, os anseios da mulher na vida, seus desejos, seu prazer.

Se a mulher chegasse a ter um envolvimento fora do casamento, era o fim do mundo: “vagabunda”! “pervertida”! Muitas vezes, merecia apanhar e, até mesmo, ser estuprada pelo próprio marido, como forma de punição.

Atualmente, evoluímos um pouco. Trabalhamos também fora de casa, mas pagamos um custo alto: a dupla, tripla ou quádrupla jornada diária. São filhos e casa para conduzir, estudos e projetos pessoais para administrar, e o marido, é claro, para “cuidar”, porque a responsabilidade por manter interessante o relacionamento continua sendo mais atribuída a nós. Afinal, “o que ele encontrar dentro de casa, não vai precisar ir procurar fora”.

Permanecemos sendo colocadas em uma postura de inferioridade nos mais diversos aspectos relativamente aos homens, tais como remuneração no mercado de trabalho e lugares no quadro político, dentre muitos outros. Também se algo com os filhos não vai bem, geralmente a culpa mais é atribuída a nós.

Somos mais atarefadas e não somos devidamente respeitadas em nossas individualidades e necessidades. Muitas vezes, tirar um tempo para nós mesmas é quase que um crime.
Embora tenha se conquistado alguns avanços no respeito aos nossos anseios, desejos e prazeres, ainda é num nível muito inferior ao dos homens.

Por tudo isso, sentimos tanto quando uma mulher é traída. Por isso, nos solidarizamos quando alguma descobre que o parceiro é um mulherengo ao estilo antigo. Por isso, ficamos com raiva da ala masculina quando uma de nós é desrespeitada e relegada a objeto.

Nos doemos, de fato, por todo o histórico de repressão, menosprezo e objetificação, sendo que o nosso sagrado feminino ainda não está totalmente curado.

Nos insurgimos porque, apesar de todo o peso que ainda carregamos em razão da nossa condição feminina, ainda temos que lidar com homens que nos desrespeitam de forma covarde e cruel. Sentimos tanto sermos enganadas justamente pela pessoa que escolhemos para o nosso companheiro de vida, que deveria ser o primeiro a nos proteger e preservar.

Precisamos passar a nos olhar, homens e mulheres, de uma forma mais igualitária, em todos os sentidos, mas sem perder de vista nossas particularidades.

Precisamos, juntos, trabalhar para curar as feridas que trazemos, tratando-se de maneira mais amorosa, exercitando a empatia e reconhecendo-nos singulares, mas igualmente merecedores de consideração e admiração.

Imagem de capa: Reprodução

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Susiane Canal
“Servidora Pública da área jurídica, porém estudante das questões da alma. Inquieta e sonhadora por natureza, acha a zona de conforto nada confortável. Ao perder-se nas palavras, busca encontrar um sentido para sua existência...”

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