– Didi, quantos anos você tem?

Eu sabia que a pergunta nada tinha a ver com idade, com a soma dos anos que muitos preferem esconder, outros disfarçar. Ele não queria saber sobre o tempo que já vivi. Era sobre o tempo adiante. Sorrio e deixo que as músicas me ajudem a responder.

Quando entra no carro, ele logo pede para ouvir música. É um menino musical, tem ritmo nos pés e remelexo na cintura. Tem as suas canções preferidas e não se importa de ouvir as minhas. Chego a pensar que ele até gosta. Expliquei pra ele que algumas das “minhas músicas” são “as músicas do vovô”. Tenho esta mania de contar para as crianças sobre as coisas do meu pai: os gostos, as palavras inusitadas, as canções que cantávamos juntos. Os pequenos vão juntando referências do avô que não conheceram – espero que a imagem faça jus ao pai que eu conheci.

Lembro meu pai cantando “Se esta rua fosse minha”, trocando as pedrinhas de brilhante por diamante. Mentalmente eu brincava de pular diamantes na rua que meu pai ladrilhou pra mim. Meu afilhado, no entanto, não se detém nas pedras preciosas.

– Didi, o que é “roubar o coração”?

Imagino sua apreensão pensando em seu coraçãozinho roubado por algum vilão dos desenhos animados. Apresso-me em explicar o sentido de “arrebatar” – que foi o que aconteceu comigo no dia em que ele nasceu. Conto novamente nosso primeiro encontro e a forma como ele roubou meu coração. Ele respira fundo, aliviado. Roubo esclarecido, voltamos às músicas do vovô – ou são nossas músicas agora?

Acho incrível que meu pai soubesse tantas músicas infantis – num tempo em que não existia Galinha Pintadinha. Na verdade a penosa azul resgatou as músicas de outrora. Canções populares são assim, encantam gerações. Toca “Alecrim” e lembro que meu pai, nos últimos tempos, gaguejava no “alecrim dourado”. Ríamos juntos. Sinto saudades.

– Didi, o vovô Bruno virou estrelinha?

– Sim, querido.

– Ele se machucou?

– Não, ele não se machucou. Ele estava bem velhinho, foi ficando mais fraco, e, um dia, foi para o céu.

Reparo que ele muda de expressão. Imagino o que pensa, que conexões mentais ele faz. É difícil explicar para uma criança sobre a finitude da vida. E sobre a continuidade de quem partiu – mas permanece dentro da gente. Penso que meu pai continua vivo, e que sorri, cada vez que cantamos as canções que ele cantou pra mim. Acredito que ele revive em cada criança que descobre quem ele foi, o que ele pensou, as coisas que ele fez. Suponho que eu permanecerei viva enquanto o Theo cantar as canções que hoje cantamos juntos.

– Didi, quantos anos você tem?

Sei que ele não quer saber do passado, ele está pensando no futuro. Será que demora para eu ficar bem velhinha? Sinto um nó na garganta. Eu espero que tenhamos muito tempo, meu menino. E estamos aproveitando bem, isso eu garanto!

Abre o sinal, muda o estilo e a canção. Agora toca Jack Johnson – músicas que meu pai não conheceu. São as novas trilhas sonoras da vida. O garoto se sacode como George, o Curioso. “Please don’t go away” diz a música preferida dele.

– Theo, deixa eu te contar uma coisa. Se você roubou meu coração, ele é teu para sempre. Isso significa que eu sempre estarei por perto. Então, se um dia eu estiver num lugar que você não pode ver, você sabe o que fazer. Cante uma das canções que eu cantei pra você.

Já é noite, e, lá de cima, uma estrela brilha (e canta) por nós.

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Imagem de 【中文ID】愚木混株 【ins-ID】cdd20 por Pixabay

Mônica Moro Harger • 23/05/2019
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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

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