Escolhi com cuidado duas berinjelas, algumas abobrinhas e três cenouras bem bonitas. Do outro lado da banca selecionei duas maçãs lustrosas, uma pera e o menor cacho de bananas. Quem mora sozinho compra frutas e verduras com pensamento fixo: “desta vez não vai estragar”. O senhor simpático me alcança as sacolas e uma rosa: “feliz dia das mães”. Meu sorriso amarelo contrasta com a rosa vermelha.

“Eu não sou mãe de ninguém” – tive vontade de responder. Exatamente como no dia do lançamento do livro da Ana, enquanto minha amiga, a mãe da Laura, me apresentava à mãe do Pedro, ao pai da Julia e demais amigos, todos especificados por sua descendência. Meu nome não carrega complemento. “Muito prazer, eu sou a Mônica – não sou mãe de ninguém” – o sorriso amarelo combinando com a capa do livro da mãe da Anita.

Enquanto guardo as compras penso na rosa que eu ganhei – e nas sopinhas que não cozinhei pra você. Passo em frente à porta do seu quarto e revejo o projeto que eu não executei. Sou capaz de enxergar o berço à esquerda, longe da janela; os nichos coloridos repletos de livrinhos; mirando a Serra do Mar, a cadeira para embalar você. No quadrinho que sua madrinha deu a palavra “love” ainda floresce, alheia a esta longa espera. Fecho a porta. Não há sorriso e nem lágrimas, apenas o vazio da sua ausência.

Existe saudade do que nunca existiu. É uma nostalgia solitária: não há solidariedade para dores inexistentes aos olhos do mundo. Porém, no meu mundo esta falta grita todos os dias.

Sinto falta de você! Dos bilhetes que não ganhei, das lágrimas que não sequei, das risadas que não contemplei. Dos seus primeiros passos, primeiras palavras, primeiro dia na escola. Do nosso livro, nossa música, nosso filme. Nossa casa! Na sala tem um pufe para guardar seus brinquedos, há porta-retratos esperando seu sorriso. Como seria seu rosto? Eu espero por você a vida inteira. Existem esperas vãs, de sorrisos tristes e quartos vazios.

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” – Machado de Assis, em sua melancolia criativa, por certo entendia desta minha (nossa?) dor. A vontade de ter a quem legar – amor, conhecimento, fortuna (ou a falta dela) – é inerente ao ser humano. O desejo de ter a quem transmitir meu humilde legado retumba em meu coração. Aliás, você consegue ver? A tatuagem no lado esquerdo do meu peito? Escrevi a letra “H” – no lado de dentro.

O sorriso pode ser amarelo, e, ainda assim, amarelo é minha cor preferida. Amarelo de esperança, sabe? A rosa vermelha da Banca do Mário já está no vaso, preparei uma salada de frutas e coloquei as abobrinhas no forno (estou finalmente aprendendo a cozinhar, juro que você não vai morrer de fome). A vida segue seu curso, nos dias especiais e nos dias comuns. Há sorrisos de muitas cores, eu sei. Todos eles habitam em mim. Eu sei que vou sorrir – e vou continuar esperando você, enquanto ainda for permitido sonhar.

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Imagem de Prawny por Pixabay

Mônica Moro Harger • 11/05/2019
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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

1 COMENTÁRIO

  1. Quem sabe não se deva esperar por quem nunca virá, porque os que já chegaram aí estão com suas lágrimas a espera de serem estancadas, enquanto nos ocupamos na tarefa improfícua de empilhar lembranças ou fictícias “saudades”. Muitas mães que tiveram filhos concebidos e gestados no mais grandioso amor, acordaram do seu sonho lamentando tê-los tido, tão diferentes delas, recusando-se a aprender suas lições mais belas porque não se emocionam como elas mas sabem machucá-las com palavras à guisa de punhais imerecidos para quem tanto amou e nada fez de mal para tanto castigo.Em nada se parecem com elas, embora tenham os mesmos olhos, a mesma testa e a mesma boca, almas dessemelhantes em corpos tão idênticos, as fazem chorar, se culpando pelos erros e pecados deles, não delas.Quando não temos o que queremos, reclamamos, nos frustramos e até adoecemos porque baixamos a imunidade que nos defende contra o mal. Porém quando a vida não nos dá o que pedimos, às vezes é para nos poupar, porque não nos faria melhor do que somos, ou nos faria chorar mais do que choramos por causa de sonhos que viraram pesadelos. Às vezes nos perdemos no passado e no futuro, distraídos do presente, de quanto valemos para o anônimo parecido com a gente, seja criança, amigo, cão ou passarinho, que adivinha o que pensamos, compartilha silêncios, sente saudade da gente, mas nem sempre é capaz de entender a razão de estarmos tristes em dias de primavera e noites de lua cheia. Felicidade não está no berço onde dorme uma criança que ainda não chegou ou está na árvore que ainda não floriu, porque está dentro, no templo onde somos deuses e no palácio onde somos reis, mas onde nem sempre gostamos de estar lá.

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