Domingo de sol em Curitiba. Para comemorar o céu azul e comprar um mimo para a amiga que convidou para o almoço, passo na floricultura.

O local está cheio. Não me incomoda o burburinho. É bonito observar gente comprando flores. Penso que quem compra flores é gente feliz. Imagino a namorada que vai ganhar rosas, a mãe que receberá um arranjo, o casal completando bodas que enfeitará a casa com uma chuva de prata (a orquídea). Observo a moça sozinha que escolhe astromélias coloridas e o senhor grisalho que prefere rosas amarelas. Duas crianças separam vasinhos de suculentas para a coleção. Acho que não há nada mais ecumênico que as flores.

Comprar flores é uma forma de oração.

Percebo duas senhoras circulando entre as flores. Uma delas, bem mais velha, tem passos miúdos auxiliados pela bengala. A outra, ainda ágil, tem urgência nos passos. A mãe está feliz, sorri com olhos. A filha não parece infeliz, mas não possui a leveza da mãe. Ao menos, não encontrei sorriso em seus olhos, nem em seus lábios. Concluí que ela vive no tempo das horas, enquanto a mãe vive no tempo das flores.

O tempo das horas é implacável. Sobrepuja os domingos, o sol, as flores. O tempo das horas tem pressa: está quase na hora do almoço, estamos atrasados, larga este brinquedo, vamos ligeiro, acorda – dorme – acorda, bate o ponto, compra comida – faz comida – come rápido, corre com isso, filho. Vamos logo, mamãe!

O tempo das flores é sereno. Supera o relógio, o cinza, o frio. Precisa de tempo para florescer: está quase na hora do jantar (podemos ficar mais um pouco?), vamos com calma, pode trazer o brinquedo, compra comida – tempera – saboreia, faz bolo, passa café, espera o neto, esquece a hora. Fica mais um pouco, filha!

Contemplo a senhora mais velha: rosto marcado, andar cauteloso, sorriso insistente. Ela escora um vasinho de flores na bengala e busca a filha com o olhar. Perderam-se no meio das flores, e penso que é um ótimo lugar para a gente se perder. Quando se encontram, a filha está inquieta – a mãe sempre acha que o tempo não passa. Avista com surpresa o vaso de flores e é gentil ao perguntar:

“Mamãe, a senhora vai dar um presente para alguém?”

“Sim, para nós!”

O tempo das horas parou. Outro tempo floresceu. Minha amiga vai ganhar flores, eu ganhei o dia. A filha sorri, o rosto iluminado. A mãe retribui, o olhar reluzente. Seguem caminho de mãos dadas – o que é, também, uma forma de oração.

***

Mônica Moro Harger • 15/04/2019
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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

4 COMENTÁRIOS

  1. Realmente quem vive no tempo das horas está deixando de viver o melhor da vida porque mesmo quando está perto das flores, está longe delas. Imprescindível desconectar-se de tomadas e fios ou seremos humanos artificialmente inteligentes sem o tesouro das emoções, das intuições e das preces. Essencial é desgrudar os olhos de telinhas e telonas para enxergar o indispensável horizonte azul do ilimitado espaço não restrito a quatro paredes de uma sala, porque somos muito mais do que contatos e acessos que nem sempre nos enriquecem de verdade o Ego quando o elogiam com mentiras ou meias verdades. É preciso reencontrar a pessoa sem máscara que fomos mas esquecemos como éramos, porque as horas passam, o tempo voa, a morte chega e descobrimos que desprezamos tudo o que realmente tinha valor em nosso tempo de viver mas aí, será tarde.

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