O que te faz sorrir? Não falo de risada solta, gargalhada, reação a uma piada bem contada ou acontecimento engraçado. Quero saber o que te faz sorrir de mansinho, geralmente sozinho, de pura satisfação? O que te repuxa o canto dos lábios naquele sorriso singelo de completa gratidão?

Esta questão apoderou-se de mim junto com o sorriso leve que aquela curva da estrada me traz. Apesar de conhecer bem o percurso, não faço questão de marcar o ponto exato em que o mar se descortina, roubando-me um sorriso e um suspiro. Sempre me surpreendo! Sempre sorrio. Para o mar, para o céu, para mim mesma.

Sempre fui de somar motivos de ser feliz. Elaboro listas mentais de coisas pequenas que nos fazem sorrir.

Gosto de escrever sobre o extraordinário da vida comum. Sobre a estrada e a liberdade.

Sobre o sorriso do seu cachorro e a cara de festa do seu filho na sua volta pra casa. Sobre receber flores, rever um velho amigo, embalar uma criança. Sobre um bilhete embaixo da sua porta. Sobre dias de sol e cheiro de chuva; lençol recém-lavado e banho demorado; café recém-passado e bolacha no forno. Sobre perfume. Sobre elogios. Sobre convites inesperados e aceites desejados. Sobre a primeira estrela que nasce, sobre o bebê que vai nascer, sobre a vida que renasce a cada amanhecer.

Entretanto, enquanto eu somo momentos felizes uma tragédia de proporções gigantescas assola o Sudeste do meu país. Centenas de vidas não vão amanhecer. Milhares, diretamente ligadas àquelas que partiram, jamais voltarão a sorrir – não este sorriso leve, que busca pequenos milagres. Lá, o sol ainda brilha e a chuva ainda cai, mas os encantos da natureza não somam nenhum alento aos que sofrem, aos que resgatam, aos que vivem este momento de indescritível tristeza e dor.

Eu também sofro. Meu sofrimento é intenso, porém, distante daquela realidade. Longe da calamidade a vida segue seu curso. Tenho que trabalhar, descansar, viver. Esboço um sorriso ou dois, meus motivos são insistentes. Sinto-me culpada, egoísta. Como posso sorrir enquanto tantos padecem? Como posso programar uma viagem, iniciar um projeto novo, fazer yoga – enquanto tantos sofrem? Como posso viver, enquanto tantos morreram – de forma tão trágica?

Há quinze dias perdi um amigo muito querido. Recebi a notícia a caminho da casa da minha afilhada, que me esperava faceira para comemorar seus 7 anos. Nosso passeio era promessa de aniversário. Ela correu, rodou, contou muitas coisas e perguntou outras tantas. De repente, disparou: “Porque você está assim, madrinha? Assim, olhando para longe?” Não lembro as palavras que usei para explicar minha dor, mas ela entendeu. Sem falar nada, me abraçou longamente. Enquanto suas mãos suaves acariciavam meu cabelo eu me permiti sorrir. Aquele sorriso de quem agradece o momento, mesmo estando com o coração partido.

A gente precisa continuar. A busca por momentos felizes não é, enfim, uma desculpa – é uma necessidade. Eu não sou egoísta, você não é indiferente. Somos todos sobreviventes. Sobre a vida, é urgente brindá-la, enquanto é possível. Sempre há algo para agradecer, uma promessa a cumprir e um sorriso que encontra motivo para despontar. O sol vai nascer, a curva da estrada vai revelar o mar, seu filho vai começar a andar. Você vai sorrir. Eu vou escrever. Enquanto há tempo.

***

Mônica Moro Harger • 05/02/2019

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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

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