“Estou sozinha em casa. Ele saiu de novo e estou terrivelmente sozinha”. Era a quinta vez que minha amiga me escrevia aquela mensagem. Li suas palavras e não pude deixar de pensar que as maiores lições que aprenderemos na vida envolvem algum tipo de solidão e um tempo para pensarmos em nós.

Muitos tiram bem pouco tempo para alguma reflexão acerca de si e da vida que levam. Então, esse “estou sozinha” pode indicar “estou com uma estranha”. Nesse caso a solidão pode e vai ser vista como algo deveras assustador. E vale dizer que essa “estranha” pode estar em um estado deplorável se ela não foi muito bem cuidada nos últimos tempos.

A realidade, em muitos momentos, é dura demais e indica, de forma incisiva, que não estamos, em muitos casos, onde deveríamos estar. Daí a gente tem que sentar e admitir pra gente mesmo que em algum ponto nos equivocamos e que não estamos felizes com as escolhas que fizemos. A dor de ficar sozinho, muitas vezes é a dor de ter que assumir um erro, de ter que encarar a vida de frente e recomeçar. A dor de estar sozinho pode ser a dor de ter que tomar alguma atitude perante uma situação. Estar sozinho indica que teremos ao nosso lado apenas a concepção boa ou ruim que fazemos de nós mesmos.

Acabei de ler o livro “Em busca de sentido” de Viktor Frankl, o qual indico grandemente, e nele o psiquiatra, que passou não por um, mas por diversos campos de concentração, relata ter percebido, dentre outras coisas, que pessoas (independente da constituição física e intelectual), tinham maior chance de sobreviver se tivessem a capacidade de acessar o mundo interior delas. A possibilidade do acesso a esse mundo interior indica que precisamos menos da aprovação externa e mais da nossa própria ideia e opinião acerca das coisas. Quando se é destituído de tudo, como nos campos de concentração, até mesmo do próprio nome, é preciso conhecer-se bem para não sucumbir diante de uma situação tão angustiante.

Você deve estar se perguntando, “Mas como acesso esse mundo interior?” Eu diria que a entrada para o mundo interior começa com a aceitação do nosso eu ou seja, com a aceitação plena de nós mesmos como seres imperfeitos, mas capazes de coisas grandiosas. A porta de entrada para o mundo interior está em ficar sozinho e não se desesperar e se culpar. Está em ficar sozinho e se sentir confortável com isso.

Mas se você ainda se desespera com sua própria companhia. Se você se recusa a ouvir o que seu coração tem a dizer, certamente você ainda não fez as pazes consigo e tem esquecido que a empatia é um sentimento maravilhoso quando aplicado ou outro, mas é sublime quando apontado para nós mesmos. Sim, a autoempatia é preciosa, mas ela é muito mal compreendida em nosso mundo. Muitas vezes a autoempatia é confundida com orgulho, com capricho e egoísmo (e talvez por isso seja comumente colocada de lado).

Tenha empatia por você tanto quanto você tem tido com seus amigos e familiares. Entenda sua situação e procure melhorar sem se depreciar, sem se odiar pelos erros, sem se sentir pequeno por ser imperfeito. Imperfeitos todos somos. Eu costumo dizer que defeito é igual à umbigo, todo mundo tem.

Permita-se estar sozinho sem piedade ou rancor por isso. Perdoe-se. Abrace a si mesmo com força. Seja um ombro amigo pra você. Muitas vezes com o passar do tempo entendemos que não tínhamos lá atrás a maturidade que temos hoje e que foram nossos passos, por mais desajeitados que possam parecer, que nos trouxeram onde estamos hoje.

Depois de um tempo você quebra o gelo e confia em si. Faz amizade consigo mesmo. Deixa de se sabotar. Passa a gostar de ficar sozinho no seu mundo interior. Aprende a praticar a autoempatia. Daí, uma bela manhã, pode acontecer de você estar sozinho e de repente perceber que está perdendo tempo demais com pessoas e coisas erradas. Pode acontecer de você estar sozinho e descobrir-se imensamente capaz de fazer diferente. Logo, sem muita demora, você vai enxergar as portas bonitas que se abrirão para longe do quarto escuro das suas dores.

Não tenha medo, a solidão boa pode ser a chance de você ouvir as respostas que já estão aí dentro. Você só precisa ficar calmo e tratar-se com muito amor e respeito. O seu mundo interior te espera. Agora só depende de você.

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Atribuição da imagem: pixabay.com – CC0 Public Domain

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que as palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

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