Ivonete Rosa

Existe muito amor em meio à rotina, muitos percebem tarde demais.

Certamente, todo mundo já ouviu ou já pronunciou, ainda que em pensamento, a frase “eu era tão feliz e não sabia!”. Sendo mais específica, vou abordar o contexto dos relacionamentos amorosos. Não raro, concebemos a ideia de que o amor que vale a pena é aquele cheio de intensidade, frio na barriga e adrenalina. Lógico que isso é maravilhoso, mas vale lembrar que esses sintomas são comuns nas fases iniciais dos relacionamentos. Não que eles desapareçam no decorrer do vínculo, contudo, eles vão se abrandando com a convivência.

Muitos se sentem profundamente desconfortáveis diante dessa mudança de fase, optando pelo término do vínculo. Eles sentem a falta dos sintomas iniciais que a paixão causa, porque, de fato, eles são viciantes e nos entorpecem. Ocorre que muitas pessoas não se dão conta de que, na verdade, aqueles sintomas foram substituídos por outros imprescindíveis para que duas pessoas se deem bem: a amizade, a liberdade de se mostrar sem formalidades, a espontaneidade, o conforto da intimidade sem reservas e a cumplicidade.

Muitas pessoas se separam acreditando que o namoro ou casamento perdeu a graça, daí, quando se percebem distante daquele convívio, se dão conta de que, o tempo todo, o amor esteve presente, mas não era percebido com clareza porque ele, o amor, é sutil. O amor é brisa, o oposto da paixão que é vendaval. Então, distante daquele parceiro, vai se dar conta de que o amor era exatamente aquele aconchego gostoso enquanto assistiam um filme num domingo à tarde, dentro de um pijama. O amor se escondia nos risos e bagunças que as crianças faziam pela casa. O amor se maquiava de bolo e café com leite no meio da tarde, na mesa da cozinha. Sim, a roupa predileta do amor é a simplicidade.

De longe, com o coração estraçalhado de saudades, vai perceber que amor estava escondido naquela ida da família ao supermercado, e que se misturava às bagagens daquela viagem que aconteceu após 5 anos de crise financeira. O amor era o principal tempero do almoço de domingo daquela família. O amor era aquela rotina de chegar em casa e ser recebido pelo cachorro eufórico, enquanto uma criança fazia o seu dever de casa na escrivaninha da copa. Tudo aquilo era amor, tudo aquilo era uma riqueza imensurável.

Preste muita atenção em seu relacionamento, se disponha a perceber as riquezas que ele te proporciona. Exercite a gratidão pelo seu parceiro, família e rotina de vocês. Não espere perder tudo isso para dar valor, não se iluda acreditando que exista relacionamento perfeito. E lembre-se, toda novidade, com o passar do tempo vira rotina e, toda rotina tem a sua beleza.

Ivonete Rosa

Sou uma mulher apaixonada por tudo o que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e psicologia. Escrevo por qualquer motivo: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel.

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Ivonete Rosa
Tags: rotina

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