Embora nós classifiquemos nossa existência em 3 grande etapas:  nascer, amadurecer e morrer,   se acrescentarmos um pouco mais de gentileza reflexiva a esses conceitos, saberemos que viver bem nem sempre está relacionado a ter uma vida longa.

Uma criança que viveu 4, 6, 10 ou 12 anos ao lado de sua família antes de adoecer e morrer pode ter sido  desejada e amada até sua partida. A precocidade de sua ida, embora difícil de lidar, tem o poder de fazer com que sua existência tenha sido menos plena?

Um senhor de 64 anos  tem saúde, mas passa os seus dias trancado em casa. Seus filhos não o visitam porque guardam mágoas do tempo em que ele bebia,  voltava para casa agressivo e maltratava a mãe. Seu isolamento atual gera tristeza, mas ele não sabe mais como mudar essa realidade com a qual lida há mais de 20 anos. Se ele viver até 80 anos assim, terá tido ele uma vida plena?

Segundo Martin Henkel, co fundador da SeniorLab Inteligência em Mercado 60+, aqueles que têm hoje 60 anos de idade, contam com uma expectativa média de vida de 81,9 anos. Quem tem 70, chegará fácil aos 84,3 anos. Quem tem 80 deve fazer planos para pelo menos mais 10 anos.

O aumento da expectativa de vida revela aprimoramento científico, melhor alimentação e qualidade geral para a manutenção da vida, mas terá ele real poder de aumentar o sentido emocional e psicológico dessas pessoas que estão tendo hoje vidas cada vez mais longas?

Por que vivemos? O que nos motiva a diariamente levantarmos de nossas camas? Quem são as pessoas com quem verdadeiramente nos relacionamos? A resposta dessas perguntas pode estar relacionada com o sentido da vida e uma longevidade que vá muito além dos anos.

Victor Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco que, durante a 2ª Guerra Mundial, esteve prisioneiro em Auschwitz. No período em que lá permaneceu, sob condições desumanas, também perdeu alguns dos membros mais importantes de sua família, entre eles, pais e esposa.

Frankl entendeu, e mais tarde consolidou suas teorias dando forma à “Logoterapia”, afirmando que as pessoas que conseguiam identificar ou mesmo criar um sentido que justificasse as suas vidas, independente das condições em que vivessem, eram aquelas que tinham a maior probabilidade de sobreviver.

Os japoneses têm uma palavra própria para isso: “ikigai”. A palavra ikigai deriva da junção de termos que, segundo o livro “Ikigai – os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz -, escrito por Hector García e Francesc Miralles, significa “vida” e “valer a pena”. Esse conceito de “uma vida que vale a pena, segundo os autores do livro, seria, então, uma definição para a extraordinária longevidade dos japoneses”.

Emílio Moriguchi, uma das maiores autoridades brasileiras em Geriatria, dentre seus inúmeros trabalhos, responsabilidades e  projetos sociais, é professor convidado no Japão. Segundo ele, os japoneses têm os melhores hospitais do mundo. O Japão é um país altamente desenvolvido em tudo. Entretanto, as consultas são frias e distanciadas do lado humano do paciente. As matérias que ele ministra com grandes honras são sobre relacionamento humano e a importância do coração. Não o órgão, ele explica, mas o sentimento. São disciplinas que enfocam a importância de médicos e enfermeiros se relacionarem humanamente com os pacientes.

O israelense Tal Ben-Shahar é responsável por um dos cursos mais populares da Universidade , nos Estados Unidos, sendo que , só no ano passado, mais de 1.000 alunos se Harvard inscreveram para assistir às suas aulas. Sabem do que ele fala? Felicidade!

Ainda falando de Harvard,  no livro “O Jeito Harvard de Ser Feliz”, que por sinal eu recomendo, o autor Swawn Achor trata dos 12 anos que passou no campus da universidade auxiliando alunos no processo de adaptação. Ele via que, em sua maioria, todo sucesso daqueles alunos brilhantes não lhes trazia felicidade, e, por isso, passou a tratar do tema em busca de respostas científicas, no campo da Psicologia Positiva, que melhorassem a qualidade de vida das pessoas.

Os exemplos acima servem para mostrar que ter uma vida longa e com qualidade é algo que vai muito além da escolha adequada dos alimentos, dos exercícios físicos e avaliações médicas periódicas – embora tudo isso seja de extrema importância. Informações técnicas não nos faltam, mas nossa humanidade e nossas relações, como andam? Seremos capazes de ter hábitos realmente saudáveis se não estivermos bem?

E, se o tempo ainda não permite que a pele mantenha mais o mesmo viço, se as juntas doem e a visão não é mais a mesma, porque o envelhecimento traz sim suas limitações, é importante que nós saibamos o que nos motiva a seguir, apesar de tudo isso.

Permitam-me  um conselho:  não se enganem com a efemeridade de muito do que se apresenta pelo caminho. É fato que “flores de plástico não morrem”, mas lembrem-se que elas também não têm vida.

Só quem tem vida sabe a importância do tempo e de cada coisa que, de forma esperada ou não, ainda faz nossos olhos brilharem.

O envelhevimento não começa aos 40, 50 ou 60 anos. Não existe melhor idade ou terceira idade.  Não há que se enaltecer ou depreciar o envelhecimento, precisamos é valorizar a vida.

Afinal, um adulto, tenha a idade que tiver, nada mais é do que uma criança que cresceu. Nos resta, então, a obrigação de adaptar a jornada à idade que temos e às nossas limitações. Um sorriso relacionado a algo que nos faz feliz e motiva sempre será um sorriso, mesmo que emoldurado por vincos, ou principalmente se for emoldurado pelos vincos trazidos das inúmeras experiências vividas, sejam elas causas do riso que ilumina ou do choro que purifica. Viver é envelhecer no aqui, no agora e a cada segundo com todos os bônus e ônus que estar vivos nos traz. J

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REFERÊNCIAS 

Disponível em: http://revistadonna.clicrbs.com.br/gente/emilio-moriguchi-diz-que-envelhecer-nao-e-um-castigo/ Acesso em: 21 set. 2018.

Disponível em: https://exame.abril.com.br/carreira/o-professor-da-alegria/ Acesso em: 21 set. 2018.

MARTIN HENKEL- “Esqueça a expectativa de 75,7 anos”- Revista Fundamental- Novo Hamburgo- Ano 07-Edição 29, p.20-21, abril/maio 2017.

ACHOR, SWAWN, O jeito Harvard de ser feliz.  1ª. Ed. Editora Saraiva, 2012.

GARCÍA, H ; MIRALLER, F. Ikigai: os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz. 1ª. Ed. Editora Intrínseca, 2018.

Disponível em: https://www.contioutra.com/o-verdadeiro-sentido-da-vida-e-sempre-nela-encontrar-um-sentido/ Acesso em: 21 set. 2018.

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Nota da página: Texto escrito para a APFCCS- Associação Paulista Feminina de Combate ao Câncer de Socorro e publicado originalmente no Jornal O Município.

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Josie Conti
É idealizadora e administradora do site CONTI outra. Psicóloga formada há 16 anos, teve sua trajetória profissional passando por diversas áreas de formação e atuação como educação, clínica, recursos humanos e saúde do trabalhador. Hoje, utiliza o conhecimento adquirido para seleção de pessoal e de material adequado aos sites com que trabalha. Realiza vídeos, palestras, entrevistas, tem um programa diário na rádio 94.7 FM de Socorro e escreve para diversos canais digitais. Sua empresa ainda faz a gestão de sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil. Atualmente possui mais de 10 milhões de usuários fidelizados entre seus seguidores diretos e seguidores dos sites clientes. Em 2017, foi convidada para falar sobre conteúdo de qualidade no evento “Afiliados Brasil” de São Paulo, à convite da Uol, pois o CONTI outra foi considerado um dos melhores sites de conteúdo ligados a empresa.

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