Ela já tinha desistido do amor, sua trajetória de sucessivas frustrações a transformou numa mulher completamente desiludida. Ela já tinha se conformado com a ideia de que o amor não era pra ela. Mas, por ironia do destino, um dos seus textos chegou às mãos de um homem que, além de ler aquela obra, leu também, um pouco da autora e quis saber quem estava por trás daquelas palavras que tanto o encantaram.

Ele a buscou nas redes sociais e a encontrou. Após incontáveis convites de amizades enviados, aquele leitor passou a fazer parte da lista de amigos dela. “Que moço do olhar intrigante!” _ Ela pensou em voz alta. Daquele dia em diante, as interações foram constantes. Apaixonado pelos textos da escritora, o leitor devorava cada publicação e esboçava a sua admiração em forma de comentários.

Trocaram telefones, e, diariamente, trocavam mensagens cheias de carinho, admiração e respeito. Foi inevitável, eles estavam encantados um pelo outro e o vínculo foi ficando cada vez mais forte. Eles foram descobrindo muitas afinidades, como se fossem duas almas se reconhecendo. Chegou um momento em que aquele encantamento exigiu que eles saíssem do contato virtual e pulassem dentro de um abraço. Sentir o cheiro, conhecer a temperatura da pele, olhar nos olhos e sentir um abraço que faz o mundo parar tornaram-se uma necessidade vital para eles, o corpo pedia e a alma implorava.

Exatamente 105 dias após a primeira mensagem trocada, a escritora embarcou no aeroporto de Brasília e desembarcou no aeroporto de Recife. O avião aterrissou naquele fim de tarde chuvoso, enquanto muitos passageiros reclamavam do clima, ela pensou: “pode chover canivete, isso não vai interferir em nada para mim pois aqui dentro existe um sol escaldante”.

Com o coração saindo pela boca, ela desembarcou, buscou as malas e enviou mensagem a ele dizendo “cheguei, cadê você?” Ele, extremamente ansioso e agoniado, não ouviu o bip de mensagem no celular dentro do bolso. Ela saiu trêmula procurando pelo seu leitor favorito naquele aeroporto desconhecido. Por fim, uma porta se abriu e eles se olharam atônitos. Se abraçaram, o abraço mais longo da vida dos dois, de fato, o mundo parou para eles. As pessoas ao redor olhavam com um misto de inveja e curiosidade.

É óbvio que ambos tinham o receio de algo dar errado no encontro real. Sabe se lá se ele iria gostar do cheiro dela. Quem garantia que ela iria gostar do toque dele? Eles tinham a consciência de que aquele encanto no plano virtual poderia ser uma frustração quando estivessem frente a frente. Contudo, aquele abraço desfez toda e qualquer dúvida, pelo contrário, aquele silêncio regado a lágrimas revelava verdades absurdas sobre o quanto eles se encaixavam e se queriam.

Ele, além estar diante da mulher que tanto roubava o sono dele à distância, estava também, diante da escritora que ele tanta admirava, foi emoção dupla, indescritível. Após o longo abraço, a tensão foi se diluindo e dando lugar aos risos e descontrações. Eles estavam vivendo uma magia digna de um filme.

A noite continuou com vinho na praia de Boa Viagem, jantar, músicas e amor…muito amor. Era amor de dentro pra fora, amor que eles desconheciam, amor que fez valer a pena cada minuto de espera por aquele dia. Eles não eram recém conhecidos ou semi estranhos. Eles se conheciam profundamente…se queriam…se respeitavam…se reconheciam. Aquele homem tão carinhoso e amável fazia fez aquela mulher pensar: “nossa, eu não acreditava que fosse possível sentir e viver algo assim, mas isso é real”. Teve choro inesperado, choro de emoção, choro porque se sentiam abraçados pela alma do outro. Foram oito dias de amor intenso e de ternura incalculável. Eles podiam ser eles mesmos, sem disfarce e sem explicação. Ela podia rir bem alto e não se sentia inadequada como em relacionamentos anteriores. Ela podia ser destrambelhada e se divertir com isso ao invés de sentir vergonha.

Após uma semana, se despediram naquele mesmo aeroporto, ambos aos prantos. Aliás, o choro iniciou na véspera. Quarenta e dois dias após, ela estava desembarcou novamente naquele aeroporto…outra vez teve um abraço interminável desses de parar o mundo, abraço molhado com lágrimas de saudades e contentamento. Dessa vez, não existia mais nenhum receio de que algo não fosse se encaixar entre eles, havia, sim, a certeza de que, ao menos por nove dias, estariam livres de todas as dores do mundo vivendo aquele amor. Não existe aliança, nem contrato, mas há um comprometimento que envolve a alma e o coração de ambos, e isso basta.

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Ivonete Rosa
Sou uma mulher apaixonada por tudo o que seja relacionado ao universo da literatura, poesia e psicologia. Escrevo por qualquer motivo: amor, tristeza, entusiasmo, tédio etc. A escrita é minha porta voz mais fiel.

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