Dia desses coloquei reparo no ato de abrir uma sombrinha. A chuva caía em gotas finas e a minha falta de guarda-chuva fez com que eu parasse para observar a sorte (ou cautela) de quem portava um. Aquele não era um guarda-chuva qualquer; já andei namorando este modelo com tecido duplo que impede um segundo aguaceiro ao fechar-se. Na face interna, como um presente além do abrigo, surge uma estampa bonita a flertar com o cinza do entorno. “Sei que está chovendo; eu vou proteger vocês” – escutei o guarda-chuva sussurrar ao lado. Então, sem dificuldade alguma, ao toque suave do portador, abriu-se uma flor de magnólia, majestosa e protetora.

Quem – o que – me protege? Da chuva, da solidão, da falta do que nunca foi? Quem segura a minha mão, me olha com candura frente à tempestade e decreta “eu vou proteger você”? Quem me resgata dos sonhos impossíveis? Quem acolhe meus medos nas noites de chuva e promete dias de sol? O que me serve de ninho, suporte, porto seguro?

Observei o casal aninhar-se sob a magnólia e seguir caminho, entre risadas e poças d’água. Juntos, sob o mesmo frágil teto. Juntos, enfrentam chuvisco e tempestade – imaginei. Concluí que aquele abraço lhes protege da chuva, da solidão e da saudade. O abraço é o guarda-chuva do amor.

Quem – o que – me guarda da minha imaginação? Esta menina travessa que insiste em habitar minha mente e se espalha pelo meu coração feito chuva de verão. Companheira de estrada, de escrita, de ilusão. Quando foi que aceitei seu convite solitário para dançar – mesmo com chuva? Eu, que sempre esqueço o guarda-chuva. Quando foi que saltitei sem ritmo e trilha sonora, pela primeira vez? Sigo dançando na imaginação – e na busca por tudo que me guarda.

Ao longe vejo que chegaram ao seu destino. Fecham o guarda-chuva, dos bons, que não lhes encharca os pés. Têm a roupa seca e a alma leve. Não desperdiçaram oportunidades, não dispensaram possibilidades. Souberam achar graça no percurso, sorrir para as intempéries. Talvez (muito provavelmente) saibam chorar também. Juntos, protegidos, com as mãos e as vidas entrelaçadas.

Quem – o que – me aguarda? A previsão do tempo é enfática. Amanhã eu vou comprar um guarda-chuva – de tecido duplo com estampa colorida. Um “guarda-chuva invertido” para reverter o destino, para flertar com o dia cinza que se anuncia. Vou imaginar companhia e cumplicidade. Vou levar a solidão para dançar, na chuva, no meu ritmo. Amanhã. Por hora, cumpro minha sorte (ou cautela) imersa em solidão e paz. No quarto de parede azul escuto o barulho da chuva. Lá fora, em algum lugar, abre-se uma flor de magnólia, majestosa e protetora.

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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

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