Estava olhando um desses sites de decoração com uma amiga e ela comentou como achava lindas aquelas casas das fotos, sempre impecavelmente arrumadas – Nossa, Cris, eu acho essas fotos super tristes, sabia? É quase como se essas casas não fossem feitas para abrigar felicidades – ela sorriu, pensativa.

Casa bonita pra mim precisa ser levemente bagunçada. Providas de um desleixo intencional e cínico em nome de um bem maior que os bens.

Pias de louça altas contam sobre jantares a dois ou sobre refazer aquela comida da sua infância só pra você, com sua mãe passando a receita por telefone.

Camas preguiçosamente por fazer trazem um cheiro de cumplicidade de uma noite a dois ou de domingos autodedicados amazeados nos lençóis colocando as séries em dia.

E os rastros de uma vida cheia vão ficando na mesa pós jantar com os amigos que não ligam para seus pratos multicoloridos quando você decidiu desistir de fazer conjuntos. Nas almofadas discordantes que te abraçam enquanto você se afunda no sofá pra ler seu novo livro preferido de pijama.

O afeto deixa rastros. Nos móveis mordiscados pelos bichanos, nas paredes que ostentam toda a criatividade dos desenhos das crianças, na toalha adotiva que a sua melhor amiga esqueceu na última visita e que jamais combinará com as suas. Benzadeus.

Casa com alma não orna com impecabilidade. A gente esbarra quando ri alto, derruba coisas quando dança, mancha o assoalho com os melhores molhos, a gente deixa cheiros, barulhos, células, pelos, pistas, memórias, saudade. A gente bota tudo em ordem pra embaralhar de novo. Casa bonita mesmo é o lugar onde a felicidade da gente se sente à vontade pra ficar.

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Diego Engenho Novo
Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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