Durante muito tempo me apeguei mais às perdas que aos ganhos, como quem recebe uma única crítica numa enxurrada de elogios e só consegue enxergar a rasura, a descostura, o defeito. Durante muito tempo fui como aquele pai do filho pródigo, que corre para fazer festa para o filho perdido, enquanto o outro herdeiro, que sempre esteve ao seu lado, recebe um tratamento comum. Eu sei, a Bíblia diz que essa história representa a “ovelha perdida”: “O filho estava morto e reviveu, tinha perecido e foi encontrado”. Porém, como disse Santo Agostinho em seu livro “Confissões”, minha dúvida sempre foi essa: “O que se opera na alma, quando se deleita mais com as coisas encontradas ou reavidas que ela estima do que se as possuísse sempre?” Pois sempre me perguntei: Por que muitas vezes damos mais valor àquilo que perdemos do que aquilo que possuímos?

Hoje quero celebrar o amor que deu certo. O amor que possuo e que me faz ter a certeza de que não preciso olhar para as coisas perdidas, rasuradas e mal costuradas que já fizeram parte da minha vida. O amor que me assegura que não necessito me deleitar mais com o que perdi do que com o que possuo, e que me garante que não corro o risco de me machucar ao reconhecer suas qualidades, pois realmente é bom e perfeito para mim.

Você se aproximou num dia que parecia ser só mais um dia comum e me convidou para jantar na Cantina Fellini. Foi um daqueles jantares em que a gente pede uma massa e um vinho, o maître nos posiciona frente a frente e conversamos amenidades.Tinha escolhido a roupa errada _ séria demais_, não tinha bolado minha listinha habitual de assuntos premeditados e não trazia comigo ilusões nem expectativas. Eu não reconheci de imediato, mas ali estava o amor que daria certo. Como numa daquelas retrospectivas em que aparece o efeito de uma página virada, lá de cima Deus me olhava e sussurrava: “Vai menina! Vai ser feliz!”

Gosto de brincar com nossas diferenças, que ficaram evidentes naquele primeiro encontro, há dezoito anos. Porém, mais tarde descobri que eram justamente essas características que faziam de você um homem singular, grande e humilde ao mesmo tempo, capaz de enxergar relevância em cada gesto meu. Naquela noite você segurou minha mão, ainda desajeitado pela timidez, e nunca mais soltou. Eu pedi um canelloni, e mesmo com vontade de raspar o prato, deixei um restinho para não dar bandeira da minha gulodice. Hoje sei que nada disso faria você desistir de mim, pois de uma forma que não sei explicar, você desejou ficar.

Amores que dão certo são recíprocos desde o início. Não causam dúvidas, não punem, não competem. Não causam insegurança, não machucam, não iludem. Amores que dão certo comparecem na hora marcada, respondem às mensagens, não desaparecem, não programam punições. Amores que dão certo não fogem, não se acovardam, não se escondem. Amores que dão certo cumprem o que dizem, revelam suas intenções, são transparentes em suas convicções. Amores que dão certo empenham-se, torcem e se entregam. Amores que dão certo respeitam, orgulham-se, andam lado a lado. Amores que dão certo não traem nem causam dúvidas, mas dão a certeza de que você fez a escolha correta.

É preciso aprender a valorizar os amores que dão certo. Não esperar eles morrerem para entendermos que eram perfeitos. Aprender a gostar do que é recíproco, real e verdadeiro, e deixar de ter olhos de ilusão para aquilo que não faz bem ao coração.

Bons relacionamentos são feitos de boas pessoas. Você nunca conseguirá ter um relacionamento realmente bom com uma pessoa ruim. Infelizmente sempre existirão pessoas que trazem dentro de si egoísmo, falta de empatia, intolerância, grosseria. Amar alguém assim, quando não somos assim, é muito difícil. Portanto, cabe a você reconhecer esse traço de personalidade e optar por insistir ou não num amor que não tem vocação para dar certo.

A gente precisa continuar acreditando que o amor pode dar certo. Que pode demorar, custar, nos fazer desanimar, mas ainda assim, dar certo. Que pode chegar e não ser reconhecido de imediato. Que muito provavelmente irá modificar algumas de nossas teorias, quebrar algumas de nossas regras e mostrar que nosso medo de ser feliz para sempre era infundado. A gente precisa continuar acreditando que um dia alguém irá fazer questão da gente e, de uma maneira que não seria possível antes, a gente irá gostar disso. Porque com o tempo a gente aprende que bom mesmo é ter um amor que nos valoriza, prioriza, corresponde. Bom mesmo é a gente querer aquilo que serve pra gente, e não viver de esperar quem nunca quis ser nosso par.

Para Luiz, meu amor que deu certo!

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

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