Hoje de manhã estava me lembrando de quando eu era criança, lá em Cachoeiro de Itapemirim, e o trem impedia a passagem dos carros, ficando às vezes, horas ali, estático. Poucas vezes minha mãe e eu nos arriscamos a pular por entre os vagões, era muito perigoso. Isso me fez refletir no quanto éramos mais calmos _ou menos estressados e aceitávamos, sem surtos de estresse, aquela imposição do tempo. Os motoristas tinham que dar a volta, fazer outro caminho. Os pedestres não tinham opção. E aceitávamos isso, a contragosto sim, mas sem maiores alardes.

No que nos tornamos? No que essa pressa tresloucada da modernidade nos tem transformado? Não suportamos nada que não nos responda instantaneamente. Hoje sabemos se a mensagem foi recebida, se foi lida. E se foi lida, por que raios a pessoa não respondeu ainda?! Hoje recebemos a notícia que a moça está grávida e temos a impressão de que seis semanas depois ela já deu à luz, e daí mais uns três meses já recebemos o convite do primeiro aniversário do bebê.

O tempo. Perdemos sua noção.

Minha reflexão pousou sobre como tratamos nosso tempo. Isso reflete em como tratamos as pessoas, em como tratamos nossa própria vida.

Sempre estamos cansados, correndo, cuidando de tudo aquilo que tem nos consumido a alma. Pouco dormimos, mal nos alimentamos. Reclamamos do calor, mas não reparamos no brilho do Sol refletido numa árvore. Damos tablets nas pequenas mãos de uma criança para que ela nos deixe trabalhar em paz. Falta-nos tempo. Estamos desprovidos da lente da contemplação, que nos torna capazes de enxergar a beleza na feiura da rotina. Estamos estressados, tornamo-nos pavios curtos. Estamos perdendo o carinho, a empatia, o cuidado com o outro. Xingamos. Tratamos o próximo às caneladas, a duras sentenças. Tornamo-nos egoístas, afinal de contas, estamos numa correria e o próximo tem que entender isso.

No entanto, sempre fico de olho no tempo. Não no que eu não tenho no meu cotidiano, mas naquele que eu ainda tenho e não sei o quanto.

A vida me ensinou não sei quando, nem como que, mesmo correndo, eu não posso abrir mão da delicadeza com o próximo, já que desde que nascemos, todas as vidas estão por um fio. E que ser gentil não é fraqueza.

Que na correria da maldita modernidade não seja preciso um trem atravessado no teu caminho para te fazer enxergar as flores que sempre estiveram à beira dos trilhos.

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Ludmila Clio
Ludmila Clio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 22 de Março de 1981.Começou a escrever para sua gaveta, como a maioria dos escritores, mas furtivamente, mostrando seus escritos para amigos e professores, foi encorajada a romper com a gaveta e publicar-se. O estopim se deu em 2004, quando venceu pela primeira vez um concurso nacional de poesias, realizado no Paraná. Graduada em História e autora de 02 livros de poesia, está prestes a lançar seu primeiro livro em prosa. Mora atualmente em Campinas/SP com sua filha adolescente.

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